segunda-feira, 14 de junho de 2010

Vênus

Em uma pedra, em uma praia qualquer havia uma garota sentada. Seus pés tocavam a água gelada. Pequenos olhos voltados para seu próprio reflexo. Haviam alguns traços envelhecidos que distanciavam aquela imagem distorcida da lembrança que tinha de si mesma.
Olhava fixamente para aqueles olhos frios e eles a fitavam com estranheza. Buscavam um no outro algo que a vã filosofia humana nunca poderia entender.
Encarava aquele rosto de traços sutis. Não conseguia desviar o olhar um segundo sequer dos gélidos olhos negros que um dia foram seus...
...E não os reconhecia....
... Como se fosse um primeiro contato com um estranho. E no fundo, cada vez que olhava aquelas feições, um misto de ânsia e desprezo tomava-lhe o corpo e a alma e desejava não olhar - mas algo lhe impedia de simplesmente fechar os olhos.
Precisava olhar... Acreditar na fidelidade daquele espelho, mesmo que teus lábios repetissem por horas "essa não sou eu."
Se recusava a crer que por trás daqueles olhos vazios pudesse existir algo que sequer assemelhasse com ela. Não acreditava na veracidade daquela imagem.
[Uma triste epifania]
- Na verdade, ela esquecera há muito que realmente era -
Havia passado tempo demais... Longe demais... Longe de si.
Olhos de pedra querendo chorar, secos ficaram.
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[Lembranças]
Pequenos sonhos coloridos de mundos fantásticos. Canções sem ritmo, de melodia cantarolada ecoavam pelo mundo, livres...
Liberdade...
O som harmonioso de uma palavra real... Longe de utopias...
Sonhar e crer. Agir sem temer. Sem o medo de tocar, das palavras que voam e rasgam o cotidiano cinzento, de expressar, de sentir, de voar... Voar tão próximo dos anjos e trazer consigo suas palavras de doçura... Nunca saber o que é se acovardar, desconhecer o vazio profundo quando o silêncio lhe sussurra "solidão". Sentir uma poesia muda irradiar de seus lábios. Correr quando o vento soprar suave em sua face. Permitir que a emoção queime as entranhas e se sentir bem... Levar o bem... Se sentir... Simplesmente sentir...
Não se amargurar... Proteger um coração frágil das mágoas, do mundo, de si mesma que envelhece e teima em correr de si... Preservar a única coisa que nem mesmo o céu poderá roubar de ti: tua complexa essência.
[Um fato importante que ela desconhece]
Ela se esqueceu de sonhar... Sentir... Ser poesia.
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Uma visão obscurecida. Um conjunto de versos sem sentido compostas por palavras tristes.
Pensou em pular daquela pedra. Em mergulhar no infinito azul. Apagar o reflexo maldito. Deixar o mundo esquecer... Fazer-se esquecer.
Olhou para o céu, uma última fotografia. Uma único pontinho luminoso no céu - sabia que era um planeta, mas se esquecera. Lembrou-se de um tempo longínquo em que fazia pedidos a primeira estrela que surgisse, quando havia a força de uma crença.
Não uniu as mãos. Não entoou o cântico que prenuncia o rito. Um sussurro breve. A força das palavras soprando pela noite. Um único pedido. FÉ.
(Tentando um último rito de passagem.Um bom feriado a todos)
Luciana Rodrigues

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