Hoje me permitirei escrever em primeira pessoa, pois vou relatar algo peculiar que aconteceu comigo, digno de ser contado. Quero compartilhar um daqueles pequenos fatos cotidianos que desperta-nos para pequenas sutilezas da vida. E hoje, particularmente, quero compartilhar com vocês que, dessa vez, quem encontrou um andarilho fui eu.
Porém, pobre andarilho desastrado, veio sem as suas lindas vestes circenses e de cara limpa. Deixara suas danças na esquina anterior, caminhando em seu ritmo lento, suave, sem melodia. Talvez suas roupas estivessem em um cesto na lavanderia e o sol tivesse lhe impedido de pintar a face - pequenas hipóteses de uma imaginação infantil. Era tão distraído que vinha com as mãos livres, sem uma rosa e um cartão.
Se me perguntas como poderia então ser este a criatura mágica que lhes mostrei em outra oportunidade, eu teria que lhe dar razão pelo pouco que contei. Naquela hora nem eu mesma sabia. Era somente mais um dia qualquer, com uma pessoa comum para mim.
Vi aquele velho rosto tão familiar que carregava consigo as mesmas feições que eu guardava em caricatura na minha memória. Cantarolava baixinho velhas canções. Elas faziam meu coração vibrar no mesmo ritmo, lembrando-me das primaveras passadas e do doce som das risadas de outrora.
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[E nesse momento a autora permite-se uma pequena omissão das horas subsequentes para manter um certo segredo sobre assuntos comuns - assim, o segredo em si já está desfeito.]
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Não era possível saber que horas eram - até porque, eram dispensáveis-, nem em que rumo a conversa estava. Só se sabia que o ponteiro dos segundos continuava a passar e a vida prosseguia a seu bel-prazer.Por algum motivo desconhecido, necessitava partir naquele instante. Poderia ser o medo eminente de uma catástrofe, a hora adiantada o frio que chegava, a conversa que se emudecia ou simplesmente a necessidade eminente da partida.
Se eu soubesse o que viria a seguir, teria me preocupado em ater melhor aos detalhes. O único momento que guardei realmente fora quando eu descobri que aquela criatura viria a ser meu andarilho naquele dia.
Com um gesto tão peculiarmente simples, despertou em mim uma sensação estranha (a mesma de Renata ao ler aquelas palavras: "Pois para mim- o desconhecido sem rosto -, pequena Rê, você é especial"). Porém, meu desconhecido tinha rosto, nome, sobrenome e um laço. Naquele instante não era eu andarilha - como muitas vezes me esforcei em ser. Era protagonista da própria história que criei.
Não havia necessidade de cartão para guardar aquelas palavras, muito menos uma rosa para guardar suas pétalas. Com um único e simples gesto minha criatura adorável disse em um sussurro mudo, capaz de abalar minha sólida tranquilidade, todas as palavras escritas naquele cartão. Eu não precisava de algo físico - como nas minhas fúteis convicções - para guardar a sensação de ser especial - e mais do que isso, ser especial para alguém, este, tão importante para mim também. Quem um dia já foi protagonista em vez de andarilho, sabe muito bem o que digo.
Tamanha fora a surpresa que nada consegui dizer. Repeti a reação que vi um dia - curiosamente daquele mesmo ser - diante de uma situação tão parecida, meu déjà-vu invertido. Se eu pudesse enxergar fora de mim, veria o sorriso sem graça - que mais ninguém poderia ver -, a cabeça baixa, assombrada diante de uma epifania tão importante e ao mesmo tempo, admirada.
Doce coinciência, era o mesmíssimo gesto.Tão simples, tão delicado, mas carregava nele todo um sentimento - o peso maior que o mundo. Eu entendi finalmente a complexidade que o meu pequeno gesto há tanto tempo tinha para o meu andarilho.
Fui embora em silêncio. Nem sequer olhei para trás. Guardei o segredo comigo até esse momento. E ainda acredito que ele permanecerá em segredo até sua total compreensão - se um dia ele encontrar esse texto. Eu sei que podia - e deveria - ter dito as mesmas palavras que ouvi, para que elas ficassem marcadas para aquele outro como ficaram pra mim. Mas elas permaneceram em mim, presas na garganta. E se eu tivesse uma outra oportunidade, eu diria aquelas palavras, se ele ainda pudesse lembrar disso.
E se um dia encontrares essas palavras, agradeço imensamente pela sinceridade que encontrei em ti naquele dia - e talvez você nem tenha percebido a importância daquele gesto.
[Para todos aqueles que
um dia tiveram a felicidade de encontrar
um andarilho, mesmo sem uma rosa
e um cartão em suas mãos]
Lu Rodrigues
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