domingo, 26 de dezembro de 2010

Tempestade

Corra. Feche as janelas. Proteja-se do vento que corta, sem piedade, o ambiente. Há tempestade lá fora e parece que esta não está disposta a dar trégua! Os trovões aceleram meus batimentos e os raios clareiam nosso sobrado. Abrace-me, não estás sozinha. Aqueça-me com teu abraço e sussurre palavras de acalento. Seja calmaria em noite de tormenta. Seja minha. Cubra o pé gelado e tome esse chá. Pegue o travesseiro e acomode-se. Não! Mais perto! Deixe-me senti-la aqui... Converse comigo, não durma! Falar do que? De nós, pode ser?! Estás feliz? Me ama? Lembra-se de nossa primeira tempestade juntas? Das goteiras do sobrado, das fendas na porta, do estremecer da sensível janela de vidro, da pouca luminosidade da lamparina de querosene a queimar lentamente? Lembra-se do violão entoando o choro do medo na noite escura? Lembra-se do sono em conjunto, do abraço apertado e do suor frio de nossos corpos colados? Posso ouvir a reza vizinha pedindo calma aos ventos. Vejo seu olhar de medo...ah, seu olhar! Naquela chuva de verão elaboramos planos diversos, pintamos a casa de verde a vermelho, adotamos um gatinho, tivemos nossos filhos, nossos medos. Nos amamos, corpo a corpo, com a pressa de um foragido em um paraíso vigiado. Senti cada suspiro com um característico arrepio espinhal... Ainda está acordada? Ah, não chore, já está passando. Nosso sobrado é forte e você tem a mim. Sempre foi e será assim! Remexa suas lembranças, com cuidado, e notarás que sempre estive ali, como figurante ou não. Veja-me ali, por exemplo, no aniversário do seu primo menor, narrando contos de fadas às crianças, com o sorriso de uma delas. Ah, note-me também ali no cantinho da sala do hospital quando tivera aquela gripe terrível e só de sopa se alimentava. Eu te servi e aprendi a cozinhar. Também estou na sua formatura, dançando, cantando, e te levando pra nossa casa, fechando um importante ciclo de sua vida. Feche os olhos, vou fazer cafuné. Quando acordar o sol já terá nascido e o café já estará na mesa. O varal estará cheio de roupas nossas e os banheiros estarão lavados. Eu faço a faxina, não se preocupe. Sua entrevista de emprego é amanhã, não se esqueça! Nos sonhos trate de relaxar e não voe para muito longe, não sem mim! Já parecemos mais tranqüilas. Acho que a chuva já corre para longe. Posso sentir o cheiro de grama molhada misturado com seu perfume. Tudo caminha para seu lugar... O sono parece nos abraçar. Beijo-lhe então e sentes, no calor de meus lábios, a segurança do amanhã. Adormecemos.

Para minha morena dos olhos d'água, com amor!

domingo, 7 de novembro de 2010

MSN hoje de manhã (por uma pessoa importantíssima na minha vida)
- O amor vem realmente da amizade -
Eu acredito que:
- Amor e amizade são apenas expressões diferentes de um mesmo sentimento-





“Andei pensando coisas, o que é raro, dirão os irônicos. Ou “o que foi?” - perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro- mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua vivo, há então uma morte anormal. O nunca mais de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter nunca mais quem morreu. E dói mais fundo- porque se poderia ter, já que está vivo. Mas não tem, não se terá, quando o fim do amor é: Never.”
[Caio F.]

[Sem nada mais para dizer.]

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Refúgio

Eu queria fugir.

Refugiar-me em teu peito, em teus abraços. Perder-me em seus sonhos e aspirações. Esquecer do mundo real e transformar nosso universo em uma canção.

Fico assim, melancólica, quando acordo e não te vejo ao meu lado; quando dou seu nome às coisas, mas não sinto seu cheiro; ou quando seu respirar não encontra minhas orelhas para o sussurro cantar o amor.

Espero ansiosa pelo dia que as tardes serão mais felizes e serenas que as manhãs, e que as noites serão mais aconchegantes e completas que todo o resto. Dia e noite com você, sem pressa ou preocupação. Seremos só nós. Para sempre...

Transformaremo-nos em fadas: nossos corações arderão em amor, sem espaço para mais nada, seremos, enfim, felizes por inteiro.

Sonhos...

Desculpe-me a audácia de meus pensamentos e vontades. Sei que nesse caminho a percorrer devemos ter garra e esperteza (esperteza de sentimentos). Não se chega com ímpeto para conquistar o mundo ou um coração. A pressa não é aliada.

Caminharei ao seu lado, amor, aproveitando cada manhã de sol, cada cor, cada pingo de chuva, cada sorriso, cada palavrão...

E será em outra manhã (como da primeira vez) que perceberás que não haverá mais dias ‘NÃO’. E na fotografia ficará só a lembrança do que ousamos chamar, certa vez, de felicidade. Seremos, enfim, um só.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

"Chegue bem perto de mim.
Me olhe, me toque, me diga qualquer coisa.
Ou não diga nada, mas chegue mais perto.
Não seja idiota,
não deixe isso se perder,
virar poeira,
virar nada..."
[Caio F.]


Estava ali, era o que ele me dizia. Tão próximo, tão íntimo. Havia tocado. E no fundo, estava com as mãos vazias e sem qualquer lembrança de toque. Achei que houvesse dominado essa parte da minha mente, mas não. Estávamos ali. E no mesmo momento não estávamos. Eu pelo menos não. Meus pensamentos vagavam em um lugar qualquer onde você nunca poderia estar. Fazia frio, é verdade. Era a unica coisa que me mantinha ligada a realidade. Mas também havia o cheiro que desconhecia - ou que simplesmente havia esquecido. Tentei esquecer, é verdade. Mas você havia vindo antes, deixado essa lembrança, além de uma curta frase sem sentido que me perturbou - na verdade, haviam coisas mais que não merecem fazer parte de seu conhecimento. Lhe peço perdão. Perdi a razão.

E eu escrevo, simplesmente escrevo. Enquanto a canção rola, sem qualquer parada para reflexão. Não são minhas mãos que escrevem, nem muito menos a sua voz doce que cantarola na minha mente, enquanto não há quem cante naquela música - aquela que mais me lembra você. Desejei me embriagar. E assim talvez houvesse uma alucinação próxima do real. Ou eu não me lembraria. Mas quando o real e o imaginário se confundem na sobriedade, você sabe que está perdido.

Nas palavras desconexas, simplesmente repito a desordem mental que vivo. Enlouqueci, devo dizer. Não há razão, não há culpados, mergulhei em um caminho solitário, sem volta. Você no fundo ainda irá conhecê-lo, acredite; você sabe que, se eu digo isso, é porque será, e muito em breve. Mas há culpa, coração? "Caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar."

domingo, 3 de outubro de 2010

Se lembrar de celebrar muito mais


Façamos da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança,
do medo uma escada,
do sonho uma ponte, da procura um encontro!

(Fernando Sabino)

Palavras.

São elas que se tornam falhas quando o assunto é você. Sempre foi assim.

Porém hoje, na melancolia dos meus pensamentos e passos, elas se fizeram tempestade.

Olho o caminho a percorrer e no medo encontro a pureza de seu olhar, sempre a dizer algo.

Na audácia de mim olho para trás e ainda vejo você, mais triste, porém presente (quando eu mesma não fui).

Ousei chamar-te de amigo, hoje és anjo.

Na minha falta de idéias fui escuridão, quando no fundo sonhava em ser sol, em poder brilhar para ti.

Perdoe-me as lacunas, mas hoje serei sucinta: te amo.

Ao amigo Thiago R.

Seu lado Amelie Poulain


“E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai por em ordem?” (A.P)

Em um solavanco da vida senti sua melancolia. Senti sua esperança se esvaindo pelos ares, passando por mim fria e ligeira. Cortante.

Tentei agarrá-la, abraçá-la, impedi-la. Lancei-me contra um nada que sonhava em voltar a ser tudo.

O tempo contou-me seus problemas. As lágrimas iam escorrendo de uma face que nunca vi, congelavam meu peito quente e me faziam querer chorar junto, pela simples companhia.

Meus pensamentos-comuns encontraram os seus de fuga e, é claro, ficaram deveras preocupados. É que eles tentam fazer de tudo para arrumar a vida dos outros. (A.P)

”Tempos difíceis para os sonhadores...” (A.P)

Ah, o tempo...

Hoje tão acolhedor e amanhã tão ligeiro e impiedoso.

Desnorteado, nesse dia nublado ele reforçou seu pedido. Ele me pedira por você. Para eu ser mais pra você. Para ser tudo.

Serei, se assim permitir.

“Então, minha querida Amelie, não tem ossos de vidro. Pode suportar os baques da vida. Se deixar passar essa chance, com o tempo seu coração ficará tão seco e quebradiço quanto meu esqueleto. Então, vá em frente, pelo amor de Deus” (A.P)



sexta-feira, 1 de outubro de 2010

.




"O que eu queria mesmo era um ombro amigo
onde pudesse encostar a cabeça,
uma passando na minha testa,
uma outra mão perdida dentro da minha.
O que eu queria era alguém que me recolhesse
como um menino desorientado numa noite de tempestade,
me colocasse numa cama quente e fofa,
me desse um chá de laranjeira
e me contasse uma história.
Uma história longa sobre um menino só e triste
que achou, uma vez,
durante uma noite de tempestade,
alguém que cuidasse dele"
[Caio F.]




segunda-feira, 27 de setembro de 2010

- Yeah you bleed just to know you're alive-
[Goo Goo Dolls - Iris]


A vida te pega de surpresa em congestionamentos imprevisíveis no horário do almoço...

...Aquela pequena criança olhava para mim... Olhos dóceis a sorrirem delicados. Estávamos em dois mundos completamente diferentes. Eu, com a cabeça recostada na janela fria do ônibus; ele sentado - em pé, deitado, saltitando - no banco de trás do carro. E entre tantas pessoas no ônibus, ele olhava somente para mim. E eu, sempre com o olhar perdido, acabei enlaçada naqueles olhos infantis.

Levantava, ria, abaixava, me observando com o canto do olho para ver se o buscava - e gargalhava. Simplesmente ria enquanto se escondia - seu prazer quase solitário, nosso segredo.

E eu, com todo o peso do mundo sobre meus ombros, também queria me esconder. Mas quando se tem 19 anos ou mais de 1,50m (o que vier primeiro), se torna impossível.

Porque no fundo, eu queria esconder de algo que estava no meu âmago, onde eu não tinha nenhum domínio - e obviamente nenhum controle. E esse lado meio Mr Hyde encarava-me no reflexo do espelho; residindo no fundo dos meus olhos; sussurrando para mim que não havia ponto de fuga.

Éramos nós. Era na verdade somente eu observando, mergulhando cada vez mais fundo para me assustar. Esconder... Queria fugir das minhas mazelas e do meu medo... Medo... O simples e único medo de ter medo. Medo de viver era o que me diziam. Mas no fundo é o medo do lado oculto - aquele dark side(?) (seria mesmo dark, eu me pergunto?Mas deixemos minhas divagações para um momento mais oportuno) - que somente eu conhecia.

Temer a sua essência.. A ti mesmo...

Peço perdão, mas a pureza infantil ficou esquecida em alguma esquina.

...Eu gritei muda ao sorrir e acenar para o garotinho.

domingo, 19 de setembro de 2010

...

(...)

Mais uma noite atípica de inverno...

O vento gelado, cortante, penetrava sem pudor em minha pele de maneira mais densa, carregada. Ele trazia lembranças e confusões de um passado que insistia em se fazer presente. Era ele que de uma maneira demasiadamente avassaladora confundia as batidas do meu coração e testava sua paciência.

Angústia.

Foi na chuva fina, amor, que me entreguei ao momento, à sensação, ao sentimento. Percebi que por trás de tanta insegurança só existe alguém que clama por sua atenção diária e por seu amor (maior do mundo).

Enganei-me ao achar que ter a capacidade de não falar era aprender a ser forte. Como poderia, se minha força és tu?

Recrimino-me por criar problemas desnecessários para mim mesma, para nós. Seu sorriso estampado na noite me lembra que este é o tempo de realmente viver; de se entregar por completo, hoje.

Desculpe-me, anjo...

Calafrio.

Ouço, longe e baixinho, sua música; sinto forte seu cheiro. Embrulho então a saudade e mando pra quem provocou nossa distância, por menor que seja.

É o coelho na lua que me inspira a dizer-te: obrigada, amor. Por tudo. Pelas alegrias duplicadas e tristezas divididas; pelo seu amor azul cor do céu.

Só peço que entenda: não sei fingir que amo pouco quando em mim ama tudo, por isso a confusão. Minha confusão.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

- Uma epígrafe que definiria tudo -
Acho que escrever uma história é uma coisa muito boa.
O coração da gente fica mais quentinho
e a gente gosta mais das pessoas.
[Caio F.]


Era uma manhã de sol. Não faz diferença se era terça, domingo ou quinta. Não importa se era janeiro, junho ou outubro. O que importa é que eles estavam sentados no mesmo gramado, no mesmo horário, mesma posição: pernas cruzadas, um de frente para o outro. Era uma manhã de sol.

Conversavam qualquer besteira, dessas que você normalmente não lembra, mas daria gostosas gargalhadas se lembrasse delas numa noite solitária. Olhavam os carros e disputavam entre si os melhores; comentavam sobre os amigos, autores e bandas em comum; diziam algo que simplesmente não fazia sentido algum e riam - ela sempre jogava a cabeça para trás e olhava o céu, enquanto ele simplesmente fazia um som bem peculiar, que nada parecia com uma risada; dividiam pequenos segredos como preferências irrelevantes e aquelas manias engraçadas que não se conta para ninguém.

Assim, simplesmente se sentiam bem um com o outro.

Poderia terminar essa história aqui, se não fosse a primeira manhã de sol depois de semanas de céu nublado.

- Pelo menos é um dia bonito - disse ele.
- Sem dúvida. Realmente, muito bonito.

Ficaram em silêncio por um instante, simplesmente se olhando. Sorriram. Mas não um sorriso que poderia ser chamado de normal - carregava significados ocultos que conscientemente desconheciam. Juntos, viraram o rosto, um para cada lado, sentindo-se estranhos.

Silêncio. Ela olhava para o próprio tênis; ele brincava com alguma folha seca no chão, que estalou alto. Se olharam. E riram.

Pela primeira vez, ela reparou que os olhos dele mudavam de cor no sol. Não sabia a diferença que essa constatação faria - só sabia que assim seria. Ele viu, quando ela sorria, surgirem pequenos traços no canto de seus olhos e achava aquilo uma graça.
[...]
As palavras queriam sair, voar, sufocavam...
- Eu não sei como, nem porque. Mas você é importante pra mim, de alguma forma. - disse ela.
- Você também é muito importante pra mim, meu anjo. Acho que nem imagina o quanto.
[...]
Abraçaram-se. Se sentiam em paz, mas ao mesmo tempo inquietos. E, como se houvesse uma urgência naquele ato, viraram-se para se encararem.

Ela sentiu o hálito quente dele queimar seus lábios. Cheiro de menta e algo a mais que não sabia descrever - mas que se encontrava preso em alguma lembrança longínqua. Estavam próximos demais um do outro.

Ficaram estáticos. Estavam tão perto e colocavam entre eles um abismo. Era medo, e ia além da razão; um temor instintivo, como se estivessem a um instante da morte.

Respiravam fundo. Sentiam a respiração um do outro. As batidas aceleravam cada segundo mais. Cada segundo, uma hora. Assim ficaram por um longo tempo, simplesmente se olhando. Estáticos. Imóveis. Simplesmente ouvindo o silêncio, esperando por uma reação que não vinha.

Ele pensava: "Por que não acontece nada?", ela: "Por que estamos tão próximos assim?". O silêncio feria. Angústia.

Então, juntos, no mesmo instante, se aproximaram ainda mais. Era possível sentirem o calor da pele um do outro. Talvez estivesse muito próximo de acontecer o que esperavam.

Poderia ser em uma fração de segundos.

E um celular tocou. Como um choque, se afastaram. Ele atendeu e rapidamente desligou.

Sorriram. E ao mesmo tempo olharam para a rua.

- Ei! O preto é meu! - disseram juntos.

E seguiu-se assim o resto da manhã - ou tarde, não importa.


[Texto escrito em 2 de setembro de 2010,
para uma aula de Comunicação e Expressão Escrita II]

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

" E eu tenho a eternidade aqui comigo..."



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Hoje palavras são falhas.
A imagem me fez chorar.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A chuva de Perseu

Estática, muda. Presa em seu olhar.

Com uma força épica transformaste-me. Do coração fez transbordar chuva de ouro.

A profecia se dava de forma contínua e lenta...

Estranheza.

Como um bárbaro eu te procurava e me lançava a ti. Entreguei-me aos seus encantos.

Não queria ser mais um ‘mítico herói grego’. Padeceria ao seu lado.

De sua face e honra faria meu escudo e lutaria contra os deuses.

Nem Perseu seria capaz de decapitar nosso amor.

. . . . . .

Lembro-me de ti. Na escuridão de mim guio-me por seus rastros de luz, que mal duram o tempo de um piscar de olhos, mas são fixados na alma.

O céu noturno me fascina e me encoraja. És fonte de inspiração.

Despertastes inveja dos deuses por tamanha pureza e hoje luto ao seu lado.

Essa noite não será como as outras. Teremos interferência de seres maiores.

Parece que um dos filhos de Zeus finalmente me ouviu: da constelação de Perseu cairá sobre nós uma chuva de estrelas cadentes. Um espetáculo para ti, amor.

Rastros luminosos colorirão os céus...

Faça seus pedidos e neles seja grande, como Aquiles e Alexandre...

Aproveite a grandiosidade dos segundos e faça deles arte. Sua arte.

- Revirando o baú -

"Eu quero mesmo é alguém que faça meu corpo
querer companhia nos momentos em que minha mente
insiste por solidão"
[Caio Fernando Abreu]

Eu tenho que confessar uma coisa criança: eu tenho medo. Medo dos anos, que hoje pesam em minhas costas muito mais do que ontem, possam me roubar a coragem - se é que um dia eu a tive. No espelho, um espectro, quase caricatura do que vira outrora. Eu não me vejo, não me reconheço. E por isso sinto medo.

Se lembra da nossa convicção falha no destino? Pequenas duas crianças e um mundo ao nosso redor. Eu chorava em silêncio e você me abraçava sem nem saber o porquê, e havia também o teu riso frouxo, teu pequeno sorriso. Ah... Felicidade.

Felicidade que roubava de você... E você nem sentia falta.

[27 de maio de 2010]

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O tempo

Janela aberta.

O vento gelado corta a pele com uma familiaridade nunca percebida... Me solto, subitamente, da minha teia de pensamentos e sonhos.

Hoje o ar percorrera o ambiente mais úmido, menos torturante, eu podia jurar que até sem pressa. O ar cantava.

Por um momento pensei sentir aquele cheiro de grama molhada que, em algumas ocasiões, já havia me hipnotizado. Sensações...

O barulho do trem anunciava o movimento do tudo: um mundo que não para. Nunca me preocupei com esse passar de horas: rápido ou não, não importava. Mas, hoje, a rajada de vento trouxe um arrepio. Típico, mas sem medo. O tic-tac do velho relógio de parede me incomodou. Percebi que para o tempo eu era nada, enquanto pra mim, ali, ele passara a ser tudo.

Eu já não me concentrava em minhas atividades rotineiras... Por que estar ali se eu não queria? O cobertor, hoje, não era suficiente. Por uma semana a solidão não me abatia. O motivo? Você. E eu não podia deixar esse instante passar. Os segundos tinham mais valor, e o vento insistia em sussurrar seu nome. Confesso: gosto da sonoridade desse seu nome, gosto das lembranças que ele me trás.

Lembro-me de ensinamentos gregos e egípcios ao dizer que no hoje fechamos um ciclo, pequeno, mas, para mim, significativo. Mas, hoje, você estava longe: não nos veríamos.

Procurei acalento no horizonte, como em um final de capítulo, encontrei a Lua e Vênus. Meus batimentos perderam o ritmo e o silêncio me disse o que muitas vezes palavras não conseguiram expressar. Sorri. Percebi teu cheiro no ar, na noite. Eu estava feliz...

Ajoelhei e agradeci aos astros. Pedi solidariedade ao tempo e decidi fazer de cada nascer do sol um dia mais feliz: com você.

Gotas começam a cair devagar... O céu parecera se emocionar com o que eu sentia: amor.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

POR TRÁS DA VIDRAÇA - [Caio Fernando Abreu]

Cá entre nós: fui eu quem sonhou que você sonhou comigo?
Ou teria sido o contrário?
Sonhei que você sonhava comigo. Mais tarde, talvez eu até ficasse confuso, sem saber ao certo se fui eu mesmo quem sonhou que você sonhava comigo, ou ao contrário, foi quem sabe você quem sonhou que eu sonhava com você. Não sei o que seria mais provável. Você sabe, nessa história de sonhos — falo o óbvio —, nunca há muita lógica nem coerência. Além disso, ainda que um de nós dois ou os dois tivéssemos realmente sonhado que um sonhava com o outro, também é pouco provável que falássemos sobre isso. Ou não? Sei que o que sei é que, sem nenhuma dúvida:
Sonhei que você sonhava comigo. Certo? Não, talvez não esteja nada certo. Também não era isso o que eu queria ou planejava dizer. Pelo menos, não desse jeito embaçado como uma vidraça durante a chuva. Por favor, apanhe aquele pequeno pedaço de feltro que fica sempre ali, ao lado dos discos. Agora limpe devagar a vidraça — quero dizer, o texto. Vá passando esse pedaço de feltro sobre o vidro, até ficar mais claro o que há por trás. Lago, edifício, montanha, outdoor, qualquer coisa. Certamente molhada, porque só quando chove as vidraças embaçam. Será? Não tenho certeza, mas o que quero dizer, disso estou certo, começa assim:
Sonhei que você sonhava comigo. Agora penso que é também provável que — se realmente fui mesmo eu a sonhar que você sonhou comigo; e não o contrário — eu não estivesse sonhando. Nada de sono, cama, olhos fechados. É possível que eu estivesse de olhos abertos no meio da rua, não na cama; durante o dia, não à noite — quando aconteceu isso que chamo de sonho. Embora saiba que — se foi dessa forma assim, digamos, consciente — então não seria correto chamá-la de sonho, essa imagem que aconteceu —, mas de imaginação ou invento até mesmo delírio, quem sabe alucinação. Mas não, não é isso o que quero contar, O que quero contar, sei muito bem e sem nenhuma hesitação, começa assim:
Sonhei que você sonhava comigo. Parece simples, mas me deixa inquieto. Cá entre nós, é um tanto atrevido supor a mim mesmo capaz de atravessar — mentalmente, dormindo ou acordado — todo esse espaço que nos separa e, de alguma forma que não compreendo, penetrar nessa região onde acontecem os seus sonhos para criar alguma situação onde, no fundo da sua mente, eu passasse a ter alguma espécie de existência. Não, não me atrevo. Então fico ainda mais confuso, porque também não sei se tudo isso não teria sido nem sonho, nem imaginação ou delírio, mas outra viagem chamada desejo. Verdade eu queria muito. Estou piorando as coisas, preciso ser mais claro. Começando de novo, quem sabe, começando agora:
Sonhei que você sonhava comigo. Depois que sonhei que você sonhava comigo, continuei sonhando que você acordava desse sonho de sonhar comigo — e era um sonho bonito, aquele —, está entendendo? Você acordava, eu não. Eu continuava sonhando, mas na continuação do meu sonho você tinha deixado de sonhar comigo. Você estava acordado, tentando adequar a imagem minha do sonho que você tinha acabado de sonhar à outra ou à soma de várias outras, que não sei se posso chamar de real, porque não foram sonhadas. Mas, se foi o contrário, então era eu, e não você, quem tentava essa adequação — nessa continuação de sonho em que ou eu ou você ou nós dois sonhamos um com o outro. Nos víamos? Quase consegui, agora. Preciso simplificar ainda mais, para começar de novo aqui:
Sonhei que você sonhava comigo. Depois, fiquei aflito. E quase certo de que isso não tinha acontecido. O que aconteceu, sim, é que foi você quem sonhou que eu sonhava com você. Mas não posso garantir nada. Sei que estou parado aqui, agora, pensando todas essas coisas. Como se estivesse — eu, não você — acordando um pouco assustado do bonito que foi ter tido aquele sonho em que você sonhava comigo. Tão breve. Mas tudo é muito longo, eu sei. Estou ficando cansativo? Cansado, também. Está bem, eu paro. Apanhe outra vez aquele pedaço de feltro: desembace, desembaço. Choveu demais, esfriou. Mas deve haver algum jeito exato de contar essa história que começa e não sei se termina ou continua assim:
Sonhei que você sonhava comigo. Ou foi o contrário? Seja como for, pouco importa: não me desperte, por favor, não te desperto.

O Estado de S. Paulo, 9/12/1987



quarta-feira, 14 de julho de 2010

Alinhar ao centro
Um toque quente, vinda de mãos suaves - velhas conhecidas - queimou a minha alma gélida.
Com sua maneira delicada, ergueu meu rosto para que eu pudesse enxergar o céu.
Sentir - e simplesmente sentir o vento em meu rosto, como há semanas havia esquecido.
- Olhe. - ele sussurrou baixinho
Eu havia deixado de olhar o céu. Havia esquecido de procurar as minhas estrelas.
- Ah sim, elas ainda estavam lá, a espera daquele tão conhecido pedido -
Diante dos olhares silenciosos das estrelas, lembrei-me da última vez. A última vez.
O céu não estava tão belo como naquela ocasião. Talvez. Poucas lembranças nítidas daquele momento.
Como se fizessem parte de um sonho longínquo que eu teimasse em lembrar, mas fugiam de mim desesperadamente.
- Talvez tivessem a sua razão em fugir -
Ela olhou para mim e sorriu. Minha senhora sorriu para mim do alto dos céus, um sorriso maroto que somente ela sabia fazer.
Guardava consigo algum segredo. Sorriso de Mona Lisa.
E lembrei-me com extrema fidelidade da última vez que a vira. Estava em seu esplendor máximo, perfeita, encantadora. Haviam se passado semanas e havia esquecido dela. Mas ainda assim, ela sorriu para mim.
E disse docemente só para mim:
- Aguarde menina, pois quando a lua surgir cheia no horizonte novamente tudo voltará a ficar bem. Tua alma estará pronta para olhar os céus novamente em busca das respostas para as antigas questões. Se acalme criança. Você estará pronta para se sentir em paz novamente.


- A espera de que, em 7 dias, a minha senhora apareça no horizonte novamente -

segunda-feira, 12 de julho de 2010

IEP 2010.


“Quando vocês pensam que eu estou distante, é exatamente neste instante, em que eu estou pensando em vocês.

Estalem os dedos.

Ouviram o som?

É nessa mesma rapidez e, às vezes sem som algum, que as pessoas entram e saem das nossas vidas. Devemos sempre estar atentos e não ter medo de amar, fazer que os momentos, mesmo que pequenos, valham a pena.

Para mim valeu.

É certo que, realmente, ninguém tem a felicidade garantida. A vida simplesmente dá a cada pessoa tempo e espaço. Depende de nós enchê-los de alegria.

Por uma semana - tempo demais ou tempo de menos, não importa (nesses dias o tempo fora apenas coadjuvante) – lidei com um sentimento puro e intenso. Avassalador.

Vivi verdadeiramente a vida.

Aprendi que a vida é agora.

Encontrei alegria no outro e em mim.

Percebi que realmente que essa vida é feita de escolhas e que, sim, muitas delas são escolhas de atitudes.

Vocês me fizeram imaginar uma nova história e acreditar nela.

Vocês têm o poder!

O imprevisível me fascinou.

Amigos de verdade.

Nada do que passamos é qualificável, compreensível ou descritível: é apenas sentido.

Lembranças guardadas no peito.

Desejemos o melhor para nós, lutemos por isso, e então esse melhor vai se instalar em nossas vidas.

Obrigada por estarem comigo, pois o que é verdadeiro fica.


domingo, 11 de julho de 2010

As GAGAS

Das risadas fez-se aproximação.

Poesia de dias que voaram;

Dias guardados na memória

de nossos corações.


Música rara;

Hoje choro do sax.

Metáforas em lágrimas.

Saudade já levada pelo vento.


Olhares de longe,

Hoje mais pertos.

Na mesma estrela:

_em uma só Gaga.


Para as GAGAS: amigos do EIP 2010. I'll miss you!

O encontro

Anos errados;

Anos passados,

_talvez jogados.


Dias deixados...


Dependência,

Egoísmo,

Ciúmes...

Um todo dentro de mim:

_amizade, amor.


Erradamente te procurei...

No acaso te achei:

_para sempre te amarei.


Para Cléo, com muito amor e gratidão.


quarta-feira, 7 de julho de 2010

Uma carta para um anjo anônimo

Por que não se render ao avanço natural das coisas,
sem procurar definições?
[Caio Fernando Abreu]



Escrevo essa pequena carta como tantas outras que ficaram perdidas entre cadernos, emboladas em latas de lixo, nas janelas de ônibus. Escrevo sem qualquer pretensão de que meu remetente a encontre. Soa mais como um desabafo direto, se assim preferir.
Deixei para escrever quando não houvesse mais sombra de qualquer raiva meu bem, pois a ira cega e as palavras soam com um peso exagerado - mesmo que não deixem de ser uma verdade. Mas me perdoe se elas ainda possuem um tom de amargura,mas é que ainda não é possível remover algumas coisas.
Escrevo para lhe contar sobre um tempo não determinado onde tudo pareceu uma nuvem pesada de fumaça encobrindo os meus olhos atentos. Eu, que sempre enxerguei tão bem as coisas que me cercam, acabei por me encontrar sem entender até o que estava mais próximo de mim. Não me entenda mal meu bem, não falo em nome de nada pessoal... Simplesmente das coisas que estão a minha volta, fora de qualquer controle, de qualquer decisão, até mesmo sua.
E entre tantos desatinos e desencontros casuais (?) com algum deus pessoal que estivesse disposto a me explicar, eu busquei uma espécie de apoio, mesmo que insuficiente - já que não havia ser nesse mundo que me dissesse exatamente o que se passava naqueles últimos minutos, horas e dias. Pedi aos céus um nome. E entre pequenos fragmentos de lembranças me veio o de um anjo mortal que vivia a proteger minha vida.
Me lembrei de pequenas promessas silenciosas e da forma como nos meus apuros pessoais, pequenas besteiras cotidianas, pequenos gestos teus acalmaram meu frágil coração arredio. Na memória, duas frases oriundas de uma última oportunidade. Dizer "desespero" soa meio forçado, mas na falta de um meio termo, diria que quando esse sentimento acabou por atingir-me, talvez fosse ainda uma daquelas coisas pequenas - quando prometeu estar ao meu lado em coisas tão mais graves.
- Apesar de que, você me conhece bem, quando meus pseudônimos e as palavras escritas não me bastam, não trazem a mim uma pequena epifania, talvez seja algo extraordinariamente grave -
Pedi ajuda. E na angústia meu bem, os conceitos de tempo e espaço se distorcem. Ainda mais diante do desconhecido - pelo menos para mim. Seriam dias ou minutos? Semanas ou segundos? Não sei. Mas em minha prece silenciosa, pedi que mais uma vez me protegesse. E trouxesse a paz que me prometeu quando ela estivesse frágil.
Eu estava tão certa e tão fundamentada em certezas. Mal de alma canceriana com lua em peixes. A crença cega na palavra humana quando ela é tão efêmera quanto o segundo que passou.
Aprendi relutante a descobrir respostas no silêncio. Um sussurro vazio entre as respirações muitas vezes falhas, ou em um olhar. E eu, que havia treinado tantas vezes, me encontrei em uma cilada: encontrar respostas em um olhar que nunca havia me encarado daquela forma. E no silêncio que se seguiu, buscar respostas em respirações que eu não podia ouvir. Ele não trazia esclarecimentos. Um silêncio que não poderia ser compreendido. Este eu me recusava a entender.
E a incompreensão se torna mais prejudicial do que o diálogo que destoa de suas opiniões e crenças.
Minhas crenças? Há. Isso talvez soasse como piada. Nunca tive crenças. Sempre dúvidas e incertezas. Sem entender sempre. Sem perceber. Você deveria saber. Me conhece. Tudo bem, esse foi um trecho retórico o qual você deveria desconsiderar, se puder.
Nesse silêncio indiferente, soou uma voz que, nem de longe poderia ser sua, sussurrando-me as velhas promessas. Estas que nem de longe aconteceram nesses últimos tempos. Desculpa, sei que sou repetitiva...
... Mas é que a decepção que se construiu sobre a sua pessoa, vindo de meu coração vem desse que poderia ser um pequeno fato pra você... Mas um enorme para mim.
O que se passa em sua mente nesse instante, eu não pretendo saber. Neste momento são minhas suposições que se constroem em fatos comprovados, meus pequenos fatos - afinal, a verdade não é relativa? Eu poderia descobrir a sua verdade se assim me fosse permitido saber. Enquanto isso, só tenho uma única suposição: Sua mente não está preparada para compreender as faltas que seus atos evasivos podem trazer para minha alma velha. Eu, que sempre me achei tão imatura, me vi na condição de encontrar alguém em um estágio anterior ao meu. E nesses atos infantis, acabei por me esbarrar em uma alma fragilizada precisando somente de palavras - e um silêncio elouquente se assim desejasse. Porém, nossas almas não se encontram na mesma sintonia...
...Mas volto a dizer, são apenas as minhas suposições.
A única certeza que ambos podemos concordar meu bem é que, independe de uma necessidade urgente que envolva coisas graves ou de simples besteiras, quando nos colocamos como pequenos anjos das pessoas ao nosso redor, assumimos missões. Proteção, trazer paz, simplesmente estar próximo são algumas delas. Não se trata de promessas ou de contratos pré-estabelecidos. São coisas que fluem de nossa alma. Independem das circunstâncias ou dos nossos achismos. O que tiro disso tudo meu bem é que como meu anjo mais velho, falhastes. Clamei por ti e esperei tempo demais.
Porém, debaixo de todas as coisas que me decepcionaram disso meu bem, ainda sobra uma consideração. Eu sei exatamente o que dirias... "Você e seu coração canceriano rancoroso". Mas este mesmo coração é aquele que cederia no primeiro chamado. Pois sabes como é... Sentimentalismo barato e uma pitada de compaixão,são apenas algumas das pequenas coisas que compõem meu ser que você conhece tão bem.
Fique bem.
De uma protegida (?)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Pequenas epifanias em busca da minha ilha desconhecida.

[Uma pequena epígrafe elucidativa]
[Fernando Meirelles sobre o falecimento de José Saramago]

Sim, o céu podia estar azul e o sol espantava o frio que arrepiava a pele no dia anterior. Mas o mundo permaneceu opaco. Os sons da vida tocavam baixinho, quando não emudeciam. Era um pequeno anúncio da notícia que receberia poucos minutos mais tarde. Havia um grande vazio no mundo deixado por um português franzino que não estava mais aqui.

E a morte de uma das minhas fontes de inspiração trouxe algumas importantes reflexões...


Pequenas epifanias

"Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida."
[Clarice Lispector]

Salvar-me não é mais suficiente. Com dificuldade descobri que eu não posso ser a mão que me puxa. Estou farta de egoísmos! Minha alma pede mais... Muito mais... Pede para não ser a única protagonista. Pede para deixar de se expor demais.
Há muito mais no mundo do que os pequenos fatos derradeiros da minha pobre existência.
Quando há tantos que precisam de salvação, eu estou fechada em mim mesma, presa na fortaleza que construí nessa ilha.

...E nem mesmo o reflexo das águas mostra mais quem sou...

"É necessário sair da ilha para ver a ilha, não nos vemos se não nos saímos de nós."
[José Saramago]

Há tantas histórias perdidas pelo mundo... E eu sei que posso com caneta e papel levar um pouco de paz.

Ser mais... Ser mais do que um simples ser com os olhos voltados para o seu próprio umbigo.

Então decidi parar de escrever como uma criança que acaba de aprender o alfabeto.
Sim, parar de brincar...
E deixar que a verdadeira alma, o verdadeiro eu-lírico tome minhas mãos e extravase por mim...
Pois estou cansada de ideias frágeis construídas através da minha preguiça.
Há muito mais em mim do que qualquer um já leu.
Pois simplesmente deixo que as palavras saiam, sem qualquer pensamento, sem profundidade.
Sei que merecem mais... Muito mais...
E não fica a promessa... Pois elas são vagas.
Minha alma já não se sacia com a superficialidade, nem muito menos com a minha maneira insuficiente para expressar um universo em palavras.
Sou mais do que isso. Muito mais.
A auto-crítica sabe que posso ser mais... Muito mais.
E quando se sabe que há mais, o pouco não basta.

Não me satisfaço com o básico... Almejo sempre mais. Ser tudo aquilo que minha alma é capaz e buscar mais ainda.

Quero ir em busca da minha ilha desconhecida.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Desilusão


SEGUNDA-FEIRA, 18 DE MAIO DE 2009


Hoje amanheceu nublado. Acho que sei o que acontecerá. Está chato não ficar chateado, está difícil se segurar.
Lá fora ainda não chove, mas aqui dentro tem tempestade. Meu coração foi encharcado por uma chuva de verdades.
Acreditei no meu coração, mergulhei fundo na amizade. Confiei sem dizer não, no começo achei que era verdade. E acabei dando bem mais do que aquilo que nunca receberei.
Até que não sofro tanto.
É que já me acostumei.



terça-feira, 15 de junho de 2010

Ser essência é muito mais!



Sim, sou uma mulher de fortes sentimentos...
Hoje meu sonho pareceu verdade, fui mais poesia que escuridão, fui céu azul em um gélido e melancólico inverno.
O verde transborda na minha alma, as sombras parecem longínquas e demasiadas fracas para me abraçar.
Hoje sou criança em ciranda a brincar.

Imagens opacas se formam diante dos meus olhos - como pequenas fotografias envelhecidas.
Cegando-me lentamente...
A luz que meus olhos desacostumaram a ver. Escondida em quarto escuro há anos - ou seria desde sempre?
A primeira vez que realmente enxerguei encontrei um céu azul anil. Um sorriso. Pedi uma pequena bênção aos meus deuses.

Há um tempo atrás, pedi às estrelas meu milagre. Julguei que tinha sido esquecida.... mas hoje senti-me realizada.
Talvez eu não esteja totalmente sozinha... ok, estou, mas essa dor parece, hoje, incomodar menos.
A luz me aquece, os amigos parecem me entender e eu... eu me torno sol. Ilumino-me, escrevo, componho. Vou tecendo, pouco a pouco, a teia da minha vida: alegre ou não.

Em um primeiro contato, estranheza. Me escondi em minhas mazelas, me embriaguei demais de tristeza, tempo demais para esquecer as formas, os traços simples que me compõe.
Havia voltado para o lar. Mesmo sem reconhecer, meu coração cantava em paz. Paz... soava doce nos lábios.
Pedi aos céus para devolver-me a aquarela. Queria e necessitava, mais do que em toda minha curta existência- pintar sonhos.

Seria demais decolar um pouco mais alto nesses sonhos? - hoje eu me atrevo.
Quero minha vida em aquarela todos os dias, "quero a música rara o som doce e choroso da flauta", quero ter vocês: para todo o sempre.
_Minha tristeza se resumiria em um único tom: cinza. Mesmo cinza das névoas, confusões e tormentas. Cor que hoje deu lugar a essa aquarela, conjunto de cores que, pela manhã, guardei em mim.

Cores e sons. E talvez no fim derradeiro se escute uma gargalhada. Canções e poesia. Os versos vivos e compartilhados por outras almas.
Então o silêncio abria ferida. Havia pesado onde sempre me disseram que seria o paraíso, mas não estava morta. Renascia.
A monocromia não me bastava. Um mundo de cores queria fazer parte de mim. As cores vivas que meus olhos agora enxergavam. Novas fotografias.
Nossa vida. Não mais uno, mono... Ser pluri, ser mais, muito mais que uma alma só a cantar. Nossa essência...


Por Amanda Mazzoni e Lu Rodrigues.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

In the cold heart of the night;

[Quando a noite é fria, as sensações são claras, sensíveis, e as palavras não podem ser contidas.]

"Os tristes acham que os ventos gemem; os alegres acham que eles cantam." Zalkind Piatigorsky

Hoje o vento está gemendo, passando pelas frestas da minha janela, me enregelando o corpo até os ossos, quase até o coração. O frio me domina de fora pra dentro, mas conservo em mim uma chama que não me deixa congelar por completo. Difícil, decerto.
E talvez eu esteja triste, ou esteja apenas com vontade de escrever... E deixar que a minha pequenina musa cante um pouquinho, para que eu me livre, de alguma forma, do verdadeiro aborrecimento que está preso em minha garganta.
E sei que esse não deveria ser o intento da minha [suposta] arte, mas descobri que para mim não tem jeito. Eu só sei escrever para me libertar do que me oprime. Isso é positivo, de alguma forma...
Ou não, né?

[...]

“Sou uma mulher de detalhes fortes nos músculos do coração. Viver não é apenas estar aqui bebendo a água ou tocando o fogo. Viver pode ser alguma coisa a mais, além dessa exatidão humana. Por isso denuncio minha alma: ela tem desvios. Não é perecível nem inadulterável. Parece oca quando choro” Mirian Freitas

Escrevo...
Escrevo a dor dos meus dias e a certeza de um novo amanhã.
Certeza um tanto incerta.
Com meu coração esmagado entre os dedos gélidos tento me tornar menos vazia, ou melhor, menos sombria. Lembro-me que sempre fui assim: poesia e escuridão. Nada estava diferente.
As palavras só davam seqüência a aquele ciclo que havia sido certamente interrompido.
Não me adianta gritar para libertar-me, ninguém me ouviria. Tudo está longe... o meu tudo está longe... nas entranhas do tempo.

[...]

Sempre fui assim, poesia e escuridão. A luz foi eclipsada pela passagem dos dias sombrios, a necessidade de sol sempre foi apenas uma esperança. Então a escrita foi o caminho que encontrei para tentar buscar calor, sonhos e ideais, ou para romper a distância que há entre mim e o meu tudo, ou para esquecer a vida pequena, sonhar com a distante grandeza da vida. A distância é fria e vazia - como essa noite gélida, onde tudo é solidão... Onde tudo o que eu quero é sonhar, sendo que isso é o que menos consigo.

[...]

Acho que não sei sonhar. Meus instantes sempre ficam ali, na cama, imóveis.
Luto por um descanso da alma e o máximo que consigo é matar as esperanças que eu tinha nas mãos.
Meu silêncio não se acalma, minha alma não dorme, não se encontra.

Repito: estou só, e com frio. Me sinto oca, com medo e sem fé. Sem fé em mim.
Queria entender a inutilidade desses meus últimos dias, mas mesmo abalada pelo frio minhas razões não me deixam só. Prossigo, amargurada, com esse vazio da minha própria existência.

[...]

Razão e vazio. Não, não é disso que eu preciso. Preciso de emoção que me preencha completamente a vida, que me transborde, que me recorde a vida que eu nunca tive, mas que de alguma forma está guardada na minha memória. Tenho aquela estranha saudade de algo que nunca aconteceu...

Um sentimento específico, na verdade. Eu preciso me recordar de que eu sou capaz de um certo sentimento. Porque a sensação é a de impossibilidade total de sentir, e me parece que toda a vida fui assim, mas sei que algo em mim entende o que quero. Talvez eu sonhe com o impossível... E é a falta de fé que me faz acreditar que haja algo impossível.

[...]

Não preciso falar de esperanças, elas não cabem nesse momento.
Disso eu me recordo.
As dores que sinto hoje são nostalgias do ontem. São notas perdidas na canção que fiz para você. Melodia rara de um coração ainda puro, sem marcas.
Meu futuro é incerto, sem promessas ou encantos programados.
Talvez eu só queira a paz para viver sozinha, descobrir essa minha essência indecifrável.

Renunciei a mim mesma por um alguém e agora meu choro e meu silêncio dizem que sou infeliz.
Hoje me sinto velha, amargurada, pedinte. A beira de um abismo, longe da vida.

[...]

Velhinha
Florbela Espanca

Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente para mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
"Já ela é velha! Como o tempo passa!..."

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio de oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até ao fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente...
Já murmuro orações... falo sozinha...

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente,
Como se fosse um bando de netinhos...

.
.
.
.
.

Por M. Peixoto e A. Mazzoni.

[...]

* Um pequeno suspiro.. Alívio...*

Estava de volta. Fazia muito tempo… Ali ainda existiam os mesmos cheiros, os mesmos rostos cansados, quase tudo impecavelmente igual. Até mesmo as minhas pequenas musas continuavam ali, sussurrando suas poesias quase imperceptivelmente. Faltavam pequenos detalhes que passariam despercebidos pela maioria dos olhos humanos – mas essa falta criava um vazio particular em meu peito.

No mesmo lugar… Sentada na mesma posição… Havia voltado para onde meu coração reconhecia como lar.

A mesma canção, minha trilha sonora pessoal para esses momentos particulares ecoava em minha mente.

- Let the seasons begin - take the big king down –

Braços invisíveis – meus velhos conhecidos anônimos – me receberam, acolheram-me como antigamente. Como se o tempo nunca tivesse existido.

Mas havia passado tempo demais… Era tarde demais…

Como pequenos sussurros, vieram fragmentos de algumas lembranças. Passavam suavemente diante de meus olhos, minhas fotografias – amareladas, gastas, antigas e tão fortes em mim.

E todas as palavras tocaram em forma de uma suave canção em minha mente.

Todas as distorções ficaram nítidas e me assustaram. Uma caricatura grotesca do que fora – desenhada pelas lembranças falhas. O sentimento no peito permanecia imaculado. Guardei-o como meu tesouro mais valioso. Porém, um único esquecimento e o conforto se tornou uma ferida que sangrava lentamente.

Nada poderia devolver tudo aquilo que minha alma necessita e que se perdeu por aí. Um cristal que fora lascado. Eu necessitava daquele pedaço “insignificante” para que eu pudesse me reconhecer – e talvez voltar a me sentir viva.

Porém, ele estava perdido pelo chão e meus olhos cegos não conseguiam encontrá-lo.

Uma lembrança. Uma voz que eu havia esquecido. Fechei os olhos e vi os poucos traços que recordava.

O vazio tornou-se ainda mais latente. Eu quis gritar, mas meu próprio desespero me sufocou. Quis clamar por você, mas as lágrimas vieram primeiro. E a nossa promessa se repetia em minha mente, como que para convencer de que ela era real: daríamos um ao outro tudo aquilo que não conseguíamos oferecer a nós mesmos.

- I'll give peace when peace is fragile. –

Mas você nunca poderia estar ali para recuperar a minha sanidade.

... Eu quis gritar, mas a dor me amordaçou…

[...]

... ... ... Arrepio ... ... ...

E uma voz ecoou por todo aquele lugar. De onde vinha, eu desconhecia, mas morria em meu peito. E meu coração, apesar de todas as falhas, reconheceu. Um sussurro. Meu salva-guarda.

- Eu estou aqui minha querida. Sempre com você –

Não acreditei quando percebi que era você.

Com a delicadeza que os deuses reservaram a ti, segurastes minhas mãos e repetia o mesmo gesto que trazia a minha paz.

De alguma forma que desconheço, minha alma sabia que era real: você estava ali comigo.

Olhei em teus olhos invisíveis e agradeci como sempre fiz: em silêncio.

- Obrigada por existir para mim. –

Será que você poderia compreender minhas palavras? Acredito que sim. Sempre me entendeu melhor do que eu mesma.

Um riso. O sorriso que você guardava somente para mim.

- Eu amo você menina. –

Silêncio. As palavras são frágeis demais para carregarem consigo o tamanho do meu amor por ti.

[...]

E cheguei até mesmo a acreditar que tudo poderia ser como antes. Mas os ponteiros do relógio e sua urgência não me permitiram ficar ali.

... ... ... Medo ... ... ...

Medo de me perder novamente… De cair, de me prender novamente naquelas correntes negras... Temia retornar ao ponto inicial e morrer lentamente em agonia.

Levantei-me. Olhei para trás procurando-te e nada encontrei. Estava só novamente. Será?

- Uma resposta –

I said baby don't worry,

life will carry.

Just take it slowly.

'Cause the love you used to feel is still in there, inside.

It may be the faded photograph, but I know you care.

So don't hide.

If you're scared, I'm here besides you.

If you get lost, I'm here to guide you.

Lu Rodrigues