- Uma epígrafe que definiria tudo -
Acho que escrever uma história é uma coisa muito boa.
O coração da gente fica mais quentinho
e a gente gosta mais das pessoas.
[Caio F.]
Era uma manhã de sol. Não faz diferença se era terça, domingo ou quinta. Não importa se era janeiro, junho ou outubro. O que importa é que eles estavam sentados no mesmo gramado, no mesmo horário, mesma posição: pernas cruzadas, um de frente para o outro. Era uma manhã de sol.
Conversavam qualquer besteira, dessas que você normalmente não lembra, mas daria gostosas gargalhadas se lembrasse delas numa noite solitária. Olhavam os carros e disputavam entre si os melhores; comentavam sobre os amigos, autores e bandas em comum; diziam algo que simplesmente não fazia sentido algum e riam - ela sempre jogava a cabeça para trás e olhava o céu, enquanto ele simplesmente fazia um som bem peculiar, que nada parecia com uma risada; dividiam pequenos segredos como preferências irrelevantes e aquelas manias engraçadas que não se conta para ninguém.
Assim, simplesmente se sentiam bem um com o outro.
Poderia terminar essa história aqui, se não fosse a primeira manhã de sol depois de semanas de céu nublado.
- Pelo menos é um dia bonito - disse ele.
- Sem dúvida. Realmente, muito bonito.
Ficaram em silêncio por um instante, simplesmente se olhando. Sorriram. Mas não um sorriso que poderia ser chamado de normal - carregava significados ocultos que conscientemente desconheciam. Juntos, viraram o rosto, um para cada lado, sentindo-se estranhos.
Silêncio. Ela olhava para o próprio tênis; ele brincava com alguma folha seca no chão, que estalou alto. Se olharam. E riram.
Pela primeira vez, ela reparou que os olhos dele mudavam de cor no sol. Não sabia a diferença que essa constatação faria - só sabia que assim seria. Ele viu, quando ela sorria, surgirem pequenos traços no canto de seus olhos e achava aquilo uma graça.
[...]
As palavras queriam sair, voar, sufocavam...
- Eu não sei como, nem porque. Mas você é importante pra mim, de alguma forma. - disse ela.
- Você também é muito importante pra mim, meu anjo. Acho que nem imagina o quanto.
[...]
Abraçaram-se. Se sentiam em paz, mas ao mesmo tempo inquietos. E, como se houvesse uma urgência naquele ato, viraram-se para se encararem.
Ela sentiu o hálito quente dele queimar seus lábios. Cheiro de menta e algo a mais que não sabia descrever - mas que se encontrava preso em alguma lembrança longínqua. Estavam próximos demais um do outro.
Ficaram estáticos. Estavam tão perto e colocavam entre eles um abismo. Era medo, e ia além da razão; um temor instintivo, como se estivessem a um instante da morte.
Respiravam fundo. Sentiam a respiração um do outro. As batidas aceleravam cada segundo mais. Cada segundo, uma hora. Assim ficaram por um longo tempo, simplesmente se olhando. Estáticos. Imóveis. Simplesmente ouvindo o silêncio, esperando por uma reação que não vinha.
Ele pensava: "Por que não acontece nada?", ela: "Por que estamos tão próximos assim?". O silêncio feria. Angústia.
Então, juntos, no mesmo instante, se aproximaram ainda mais. Era possível sentirem o calor da pele um do outro. Talvez estivesse muito próximo de acontecer o que esperavam.
Poderia ser em uma fração de segundos.
E um celular tocou. Como um choque, se afastaram. Ele atendeu e rapidamente desligou.
Sorriram. E ao mesmo tempo olharam para a rua.
- Ei! O preto é meu! - disseram juntos.
E seguiu-se assim o resto da manhã - ou tarde, não importa.
[Texto escrito em 2 de setembro de 2010,
para uma aula de Comunicação e Expressão Escrita II]