segunda-feira, 27 de setembro de 2010

- Yeah you bleed just to know you're alive-
[Goo Goo Dolls - Iris]


A vida te pega de surpresa em congestionamentos imprevisíveis no horário do almoço...

...Aquela pequena criança olhava para mim... Olhos dóceis a sorrirem delicados. Estávamos em dois mundos completamente diferentes. Eu, com a cabeça recostada na janela fria do ônibus; ele sentado - em pé, deitado, saltitando - no banco de trás do carro. E entre tantas pessoas no ônibus, ele olhava somente para mim. E eu, sempre com o olhar perdido, acabei enlaçada naqueles olhos infantis.

Levantava, ria, abaixava, me observando com o canto do olho para ver se o buscava - e gargalhava. Simplesmente ria enquanto se escondia - seu prazer quase solitário, nosso segredo.

E eu, com todo o peso do mundo sobre meus ombros, também queria me esconder. Mas quando se tem 19 anos ou mais de 1,50m (o que vier primeiro), se torna impossível.

Porque no fundo, eu queria esconder de algo que estava no meu âmago, onde eu não tinha nenhum domínio - e obviamente nenhum controle. E esse lado meio Mr Hyde encarava-me no reflexo do espelho; residindo no fundo dos meus olhos; sussurrando para mim que não havia ponto de fuga.

Éramos nós. Era na verdade somente eu observando, mergulhando cada vez mais fundo para me assustar. Esconder... Queria fugir das minhas mazelas e do meu medo... Medo... O simples e único medo de ter medo. Medo de viver era o que me diziam. Mas no fundo é o medo do lado oculto - aquele dark side(?) (seria mesmo dark, eu me pergunto?Mas deixemos minhas divagações para um momento mais oportuno) - que somente eu conhecia.

Temer a sua essência.. A ti mesmo...

Peço perdão, mas a pureza infantil ficou esquecida em alguma esquina.

...Eu gritei muda ao sorrir e acenar para o garotinho.

domingo, 19 de setembro de 2010

...

(...)

Mais uma noite atípica de inverno...

O vento gelado, cortante, penetrava sem pudor em minha pele de maneira mais densa, carregada. Ele trazia lembranças e confusões de um passado que insistia em se fazer presente. Era ele que de uma maneira demasiadamente avassaladora confundia as batidas do meu coração e testava sua paciência.

Angústia.

Foi na chuva fina, amor, que me entreguei ao momento, à sensação, ao sentimento. Percebi que por trás de tanta insegurança só existe alguém que clama por sua atenção diária e por seu amor (maior do mundo).

Enganei-me ao achar que ter a capacidade de não falar era aprender a ser forte. Como poderia, se minha força és tu?

Recrimino-me por criar problemas desnecessários para mim mesma, para nós. Seu sorriso estampado na noite me lembra que este é o tempo de realmente viver; de se entregar por completo, hoje.

Desculpe-me, anjo...

Calafrio.

Ouço, longe e baixinho, sua música; sinto forte seu cheiro. Embrulho então a saudade e mando pra quem provocou nossa distância, por menor que seja.

É o coelho na lua que me inspira a dizer-te: obrigada, amor. Por tudo. Pelas alegrias duplicadas e tristezas divididas; pelo seu amor azul cor do céu.

Só peço que entenda: não sei fingir que amo pouco quando em mim ama tudo, por isso a confusão. Minha confusão.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

- Uma epígrafe que definiria tudo -
Acho que escrever uma história é uma coisa muito boa.
O coração da gente fica mais quentinho
e a gente gosta mais das pessoas.
[Caio F.]


Era uma manhã de sol. Não faz diferença se era terça, domingo ou quinta. Não importa se era janeiro, junho ou outubro. O que importa é que eles estavam sentados no mesmo gramado, no mesmo horário, mesma posição: pernas cruzadas, um de frente para o outro. Era uma manhã de sol.

Conversavam qualquer besteira, dessas que você normalmente não lembra, mas daria gostosas gargalhadas se lembrasse delas numa noite solitária. Olhavam os carros e disputavam entre si os melhores; comentavam sobre os amigos, autores e bandas em comum; diziam algo que simplesmente não fazia sentido algum e riam - ela sempre jogava a cabeça para trás e olhava o céu, enquanto ele simplesmente fazia um som bem peculiar, que nada parecia com uma risada; dividiam pequenos segredos como preferências irrelevantes e aquelas manias engraçadas que não se conta para ninguém.

Assim, simplesmente se sentiam bem um com o outro.

Poderia terminar essa história aqui, se não fosse a primeira manhã de sol depois de semanas de céu nublado.

- Pelo menos é um dia bonito - disse ele.
- Sem dúvida. Realmente, muito bonito.

Ficaram em silêncio por um instante, simplesmente se olhando. Sorriram. Mas não um sorriso que poderia ser chamado de normal - carregava significados ocultos que conscientemente desconheciam. Juntos, viraram o rosto, um para cada lado, sentindo-se estranhos.

Silêncio. Ela olhava para o próprio tênis; ele brincava com alguma folha seca no chão, que estalou alto. Se olharam. E riram.

Pela primeira vez, ela reparou que os olhos dele mudavam de cor no sol. Não sabia a diferença que essa constatação faria - só sabia que assim seria. Ele viu, quando ela sorria, surgirem pequenos traços no canto de seus olhos e achava aquilo uma graça.
[...]
As palavras queriam sair, voar, sufocavam...
- Eu não sei como, nem porque. Mas você é importante pra mim, de alguma forma. - disse ela.
- Você também é muito importante pra mim, meu anjo. Acho que nem imagina o quanto.
[...]
Abraçaram-se. Se sentiam em paz, mas ao mesmo tempo inquietos. E, como se houvesse uma urgência naquele ato, viraram-se para se encararem.

Ela sentiu o hálito quente dele queimar seus lábios. Cheiro de menta e algo a mais que não sabia descrever - mas que se encontrava preso em alguma lembrança longínqua. Estavam próximos demais um do outro.

Ficaram estáticos. Estavam tão perto e colocavam entre eles um abismo. Era medo, e ia além da razão; um temor instintivo, como se estivessem a um instante da morte.

Respiravam fundo. Sentiam a respiração um do outro. As batidas aceleravam cada segundo mais. Cada segundo, uma hora. Assim ficaram por um longo tempo, simplesmente se olhando. Estáticos. Imóveis. Simplesmente ouvindo o silêncio, esperando por uma reação que não vinha.

Ele pensava: "Por que não acontece nada?", ela: "Por que estamos tão próximos assim?". O silêncio feria. Angústia.

Então, juntos, no mesmo instante, se aproximaram ainda mais. Era possível sentirem o calor da pele um do outro. Talvez estivesse muito próximo de acontecer o que esperavam.

Poderia ser em uma fração de segundos.

E um celular tocou. Como um choque, se afastaram. Ele atendeu e rapidamente desligou.

Sorriram. E ao mesmo tempo olharam para a rua.

- Ei! O preto é meu! - disseram juntos.

E seguiu-se assim o resto da manhã - ou tarde, não importa.


[Texto escrito em 2 de setembro de 2010,
para uma aula de Comunicação e Expressão Escrita II]