Por que não se render ao avanço natural das coisas,
sem procurar definições?
[Caio Fernando Abreu]
Escrevo essa pequena carta como tantas outras que ficaram perdidas entre cadernos, emboladas em latas de lixo, nas janelas de ônibus. Escrevo sem qualquer pretensão de que meu remetente a encontre. Soa mais como um desabafo direto, se assim preferir.
Deixei para escrever quando não houvesse mais sombra de qualquer raiva meu bem, pois a ira cega e as palavras soam com um peso exagerado - mesmo que não deixem de ser uma verdade. Mas me perdoe se elas ainda possuem um tom de amargura,mas é que ainda não é possível remover algumas coisas.
Escrevo para lhe contar sobre um tempo não determinado onde tudo pareceu uma nuvem pesada de fumaça encobrindo os meus olhos atentos. Eu, que sempre enxerguei tão bem as coisas que me cercam, acabei por me encontrar sem entender até o que estava mais próximo de mim. Não me entenda mal meu bem, não falo em nome de nada pessoal... Simplesmente das coisas que estão a minha volta, fora de qualquer controle, de qualquer decisão, até mesmo sua.
E entre tantos desatinos e desencontros casuais (?) com algum deus pessoal que estivesse disposto a me explicar, eu busquei uma espécie de apoio, mesmo que insuficiente - já que não havia ser nesse mundo que me dissesse exatamente o que se passava naqueles últimos minutos, horas e dias. Pedi aos céus um nome. E entre pequenos fragmentos de lembranças me veio o de um anjo mortal que vivia a proteger minha vida.
Me lembrei de pequenas promessas silenciosas e da forma como nos meus apuros pessoais, pequenas besteiras cotidianas, pequenos gestos teus acalmaram meu frágil coração arredio. Na memória, duas frases oriundas de uma última oportunidade. Dizer "desespero" soa meio forçado, mas na falta de um meio termo, diria que quando esse sentimento acabou por atingir-me, talvez fosse ainda uma daquelas coisas pequenas - quando prometeu estar ao meu lado em coisas tão mais graves.
- Apesar de que, você me conhece bem, quando meus pseudônimos e as palavras escritas não me bastam, não trazem a mim uma pequena epifania, talvez seja algo extraordinariamente grave -
Pedi ajuda. E na angústia meu bem, os conceitos de tempo e espaço se distorcem. Ainda mais diante do desconhecido - pelo menos para mim. Seriam dias ou minutos? Semanas ou segundos? Não sei. Mas em minha prece silenciosa, pedi que mais uma vez me protegesse. E trouxesse a paz que me prometeu quando ela estivesse frágil.
Eu estava tão certa e tão fundamentada em certezas. Mal de alma canceriana com lua em peixes. A crença cega na palavra humana quando ela é tão efêmera quanto o segundo que passou.
Aprendi relutante a descobrir respostas no silêncio. Um sussurro vazio entre as respirações muitas vezes falhas, ou em um olhar. E eu, que havia treinado tantas vezes, me encontrei em uma cilada: encontrar respostas em um olhar que nunca havia me encarado daquela forma. E no silêncio que se seguiu, buscar respostas em respirações que eu não podia ouvir. Ele não trazia esclarecimentos. Um silêncio que não poderia ser compreendido. Este eu me recusava a entender.
E a incompreensão se torna mais prejudicial do que o diálogo que destoa de suas opiniões e crenças.
Minhas crenças? Há. Isso talvez soasse como piada. Nunca tive crenças. Sempre dúvidas e incertezas. Sem entender sempre. Sem perceber. Você deveria saber. Me conhece. Tudo bem, esse foi um trecho retórico o qual você deveria desconsiderar, se puder.
Nesse silêncio indiferente, soou uma voz que, nem de longe poderia ser sua, sussurrando-me as velhas promessas. Estas que nem de longe aconteceram nesses últimos tempos. Desculpa, sei que sou repetitiva...
... Mas é que a decepção que se construiu sobre a sua pessoa, vindo de meu coração vem desse que poderia ser um pequeno fato pra você... Mas um enorme para mim.
O que se passa em sua mente nesse instante, eu não pretendo saber. Neste momento são minhas suposições que se constroem em fatos comprovados, meus pequenos fatos - afinal, a verdade não é relativa? Eu poderia descobrir a sua verdade se assim me fosse permitido saber. Enquanto isso, só tenho uma única suposição: Sua mente não está preparada para compreender as faltas que seus atos evasivos podem trazer para minha alma velha. Eu, que sempre me achei tão imatura, me vi na condição de encontrar alguém em um estágio anterior ao meu. E nesses atos infantis, acabei por me esbarrar em uma alma fragilizada precisando somente de palavras - e um silêncio elouquente se assim desejasse. Porém, nossas almas não se encontram na mesma sintonia...
...Mas volto a dizer, são apenas as minhas suposições.
A única certeza que ambos podemos concordar meu bem é que, independe de uma necessidade urgente que envolva coisas graves ou de simples besteiras, quando nos colocamos como pequenos anjos das pessoas ao nosso redor, assumimos missões. Proteção, trazer paz, simplesmente estar próximo são algumas delas. Não se trata de promessas ou de contratos pré-estabelecidos. São coisas que fluem de nossa alma. Independem das circunstâncias ou dos nossos achismos. O que tiro disso tudo meu bem é que como meu anjo mais velho, falhastes. Clamei por ti e esperei tempo demais.
Porém, debaixo de todas as coisas que me decepcionaram disso meu bem, ainda sobra uma consideração. Eu sei exatamente o que dirias... "Você e seu coração canceriano rancoroso". Mas este mesmo coração é aquele que cederia no primeiro chamado. Pois sabes como é... Sentimentalismo barato e uma pitada de compaixão,são apenas algumas das pequenas coisas que compõem meu ser que você conhece tão bem.
Fique bem.
De uma protegida (?)