quinta-feira, 29 de julho de 2010

O tempo

Janela aberta.

O vento gelado corta a pele com uma familiaridade nunca percebida... Me solto, subitamente, da minha teia de pensamentos e sonhos.

Hoje o ar percorrera o ambiente mais úmido, menos torturante, eu podia jurar que até sem pressa. O ar cantava.

Por um momento pensei sentir aquele cheiro de grama molhada que, em algumas ocasiões, já havia me hipnotizado. Sensações...

O barulho do trem anunciava o movimento do tudo: um mundo que não para. Nunca me preocupei com esse passar de horas: rápido ou não, não importava. Mas, hoje, a rajada de vento trouxe um arrepio. Típico, mas sem medo. O tic-tac do velho relógio de parede me incomodou. Percebi que para o tempo eu era nada, enquanto pra mim, ali, ele passara a ser tudo.

Eu já não me concentrava em minhas atividades rotineiras... Por que estar ali se eu não queria? O cobertor, hoje, não era suficiente. Por uma semana a solidão não me abatia. O motivo? Você. E eu não podia deixar esse instante passar. Os segundos tinham mais valor, e o vento insistia em sussurrar seu nome. Confesso: gosto da sonoridade desse seu nome, gosto das lembranças que ele me trás.

Lembro-me de ensinamentos gregos e egípcios ao dizer que no hoje fechamos um ciclo, pequeno, mas, para mim, significativo. Mas, hoje, você estava longe: não nos veríamos.

Procurei acalento no horizonte, como em um final de capítulo, encontrei a Lua e Vênus. Meus batimentos perderam o ritmo e o silêncio me disse o que muitas vezes palavras não conseguiram expressar. Sorri. Percebi teu cheiro no ar, na noite. Eu estava feliz...

Ajoelhei e agradeci aos astros. Pedi solidariedade ao tempo e decidi fazer de cada nascer do sol um dia mais feliz: com você.

Gotas começam a cair devagar... O céu parecera se emocionar com o que eu sentia: amor.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

POR TRÁS DA VIDRAÇA - [Caio Fernando Abreu]

Cá entre nós: fui eu quem sonhou que você sonhou comigo?
Ou teria sido o contrário?
Sonhei que você sonhava comigo. Mais tarde, talvez eu até ficasse confuso, sem saber ao certo se fui eu mesmo quem sonhou que você sonhava comigo, ou ao contrário, foi quem sabe você quem sonhou que eu sonhava com você. Não sei o que seria mais provável. Você sabe, nessa história de sonhos — falo o óbvio —, nunca há muita lógica nem coerência. Além disso, ainda que um de nós dois ou os dois tivéssemos realmente sonhado que um sonhava com o outro, também é pouco provável que falássemos sobre isso. Ou não? Sei que o que sei é que, sem nenhuma dúvida:
Sonhei que você sonhava comigo. Certo? Não, talvez não esteja nada certo. Também não era isso o que eu queria ou planejava dizer. Pelo menos, não desse jeito embaçado como uma vidraça durante a chuva. Por favor, apanhe aquele pequeno pedaço de feltro que fica sempre ali, ao lado dos discos. Agora limpe devagar a vidraça — quero dizer, o texto. Vá passando esse pedaço de feltro sobre o vidro, até ficar mais claro o que há por trás. Lago, edifício, montanha, outdoor, qualquer coisa. Certamente molhada, porque só quando chove as vidraças embaçam. Será? Não tenho certeza, mas o que quero dizer, disso estou certo, começa assim:
Sonhei que você sonhava comigo. Agora penso que é também provável que — se realmente fui mesmo eu a sonhar que você sonhou comigo; e não o contrário — eu não estivesse sonhando. Nada de sono, cama, olhos fechados. É possível que eu estivesse de olhos abertos no meio da rua, não na cama; durante o dia, não à noite — quando aconteceu isso que chamo de sonho. Embora saiba que — se foi dessa forma assim, digamos, consciente — então não seria correto chamá-la de sonho, essa imagem que aconteceu —, mas de imaginação ou invento até mesmo delírio, quem sabe alucinação. Mas não, não é isso o que quero contar, O que quero contar, sei muito bem e sem nenhuma hesitação, começa assim:
Sonhei que você sonhava comigo. Parece simples, mas me deixa inquieto. Cá entre nós, é um tanto atrevido supor a mim mesmo capaz de atravessar — mentalmente, dormindo ou acordado — todo esse espaço que nos separa e, de alguma forma que não compreendo, penetrar nessa região onde acontecem os seus sonhos para criar alguma situação onde, no fundo da sua mente, eu passasse a ter alguma espécie de existência. Não, não me atrevo. Então fico ainda mais confuso, porque também não sei se tudo isso não teria sido nem sonho, nem imaginação ou delírio, mas outra viagem chamada desejo. Verdade eu queria muito. Estou piorando as coisas, preciso ser mais claro. Começando de novo, quem sabe, começando agora:
Sonhei que você sonhava comigo. Depois que sonhei que você sonhava comigo, continuei sonhando que você acordava desse sonho de sonhar comigo — e era um sonho bonito, aquele —, está entendendo? Você acordava, eu não. Eu continuava sonhando, mas na continuação do meu sonho você tinha deixado de sonhar comigo. Você estava acordado, tentando adequar a imagem minha do sonho que você tinha acabado de sonhar à outra ou à soma de várias outras, que não sei se posso chamar de real, porque não foram sonhadas. Mas, se foi o contrário, então era eu, e não você, quem tentava essa adequação — nessa continuação de sonho em que ou eu ou você ou nós dois sonhamos um com o outro. Nos víamos? Quase consegui, agora. Preciso simplificar ainda mais, para começar de novo aqui:
Sonhei que você sonhava comigo. Depois, fiquei aflito. E quase certo de que isso não tinha acontecido. O que aconteceu, sim, é que foi você quem sonhou que eu sonhava com você. Mas não posso garantir nada. Sei que estou parado aqui, agora, pensando todas essas coisas. Como se estivesse — eu, não você — acordando um pouco assustado do bonito que foi ter tido aquele sonho em que você sonhava comigo. Tão breve. Mas tudo é muito longo, eu sei. Estou ficando cansativo? Cansado, também. Está bem, eu paro. Apanhe outra vez aquele pedaço de feltro: desembace, desembaço. Choveu demais, esfriou. Mas deve haver algum jeito exato de contar essa história que começa e não sei se termina ou continua assim:
Sonhei que você sonhava comigo. Ou foi o contrário? Seja como for, pouco importa: não me desperte, por favor, não te desperto.

O Estado de S. Paulo, 9/12/1987



quarta-feira, 14 de julho de 2010

Alinhar ao centro
Um toque quente, vinda de mãos suaves - velhas conhecidas - queimou a minha alma gélida.
Com sua maneira delicada, ergueu meu rosto para que eu pudesse enxergar o céu.
Sentir - e simplesmente sentir o vento em meu rosto, como há semanas havia esquecido.
- Olhe. - ele sussurrou baixinho
Eu havia deixado de olhar o céu. Havia esquecido de procurar as minhas estrelas.
- Ah sim, elas ainda estavam lá, a espera daquele tão conhecido pedido -
Diante dos olhares silenciosos das estrelas, lembrei-me da última vez. A última vez.
O céu não estava tão belo como naquela ocasião. Talvez. Poucas lembranças nítidas daquele momento.
Como se fizessem parte de um sonho longínquo que eu teimasse em lembrar, mas fugiam de mim desesperadamente.
- Talvez tivessem a sua razão em fugir -
Ela olhou para mim e sorriu. Minha senhora sorriu para mim do alto dos céus, um sorriso maroto que somente ela sabia fazer.
Guardava consigo algum segredo. Sorriso de Mona Lisa.
E lembrei-me com extrema fidelidade da última vez que a vira. Estava em seu esplendor máximo, perfeita, encantadora. Haviam se passado semanas e havia esquecido dela. Mas ainda assim, ela sorriu para mim.
E disse docemente só para mim:
- Aguarde menina, pois quando a lua surgir cheia no horizonte novamente tudo voltará a ficar bem. Tua alma estará pronta para olhar os céus novamente em busca das respostas para as antigas questões. Se acalme criança. Você estará pronta para se sentir em paz novamente.


- A espera de que, em 7 dias, a minha senhora apareça no horizonte novamente -

segunda-feira, 12 de julho de 2010

IEP 2010.


“Quando vocês pensam que eu estou distante, é exatamente neste instante, em que eu estou pensando em vocês.

Estalem os dedos.

Ouviram o som?

É nessa mesma rapidez e, às vezes sem som algum, que as pessoas entram e saem das nossas vidas. Devemos sempre estar atentos e não ter medo de amar, fazer que os momentos, mesmo que pequenos, valham a pena.

Para mim valeu.

É certo que, realmente, ninguém tem a felicidade garantida. A vida simplesmente dá a cada pessoa tempo e espaço. Depende de nós enchê-los de alegria.

Por uma semana - tempo demais ou tempo de menos, não importa (nesses dias o tempo fora apenas coadjuvante) – lidei com um sentimento puro e intenso. Avassalador.

Vivi verdadeiramente a vida.

Aprendi que a vida é agora.

Encontrei alegria no outro e em mim.

Percebi que realmente que essa vida é feita de escolhas e que, sim, muitas delas são escolhas de atitudes.

Vocês me fizeram imaginar uma nova história e acreditar nela.

Vocês têm o poder!

O imprevisível me fascinou.

Amigos de verdade.

Nada do que passamos é qualificável, compreensível ou descritível: é apenas sentido.

Lembranças guardadas no peito.

Desejemos o melhor para nós, lutemos por isso, e então esse melhor vai se instalar em nossas vidas.

Obrigada por estarem comigo, pois o que é verdadeiro fica.


domingo, 11 de julho de 2010

As GAGAS

Das risadas fez-se aproximação.

Poesia de dias que voaram;

Dias guardados na memória

de nossos corações.


Música rara;

Hoje choro do sax.

Metáforas em lágrimas.

Saudade já levada pelo vento.


Olhares de longe,

Hoje mais pertos.

Na mesma estrela:

_em uma só Gaga.


Para as GAGAS: amigos do EIP 2010. I'll miss you!

O encontro

Anos errados;

Anos passados,

_talvez jogados.


Dias deixados...


Dependência,

Egoísmo,

Ciúmes...

Um todo dentro de mim:

_amizade, amor.


Erradamente te procurei...

No acaso te achei:

_para sempre te amarei.


Para Cléo, com muito amor e gratidão.


quarta-feira, 7 de julho de 2010

Uma carta para um anjo anônimo

Por que não se render ao avanço natural das coisas,
sem procurar definições?
[Caio Fernando Abreu]



Escrevo essa pequena carta como tantas outras que ficaram perdidas entre cadernos, emboladas em latas de lixo, nas janelas de ônibus. Escrevo sem qualquer pretensão de que meu remetente a encontre. Soa mais como um desabafo direto, se assim preferir.
Deixei para escrever quando não houvesse mais sombra de qualquer raiva meu bem, pois a ira cega e as palavras soam com um peso exagerado - mesmo que não deixem de ser uma verdade. Mas me perdoe se elas ainda possuem um tom de amargura,mas é que ainda não é possível remover algumas coisas.
Escrevo para lhe contar sobre um tempo não determinado onde tudo pareceu uma nuvem pesada de fumaça encobrindo os meus olhos atentos. Eu, que sempre enxerguei tão bem as coisas que me cercam, acabei por me encontrar sem entender até o que estava mais próximo de mim. Não me entenda mal meu bem, não falo em nome de nada pessoal... Simplesmente das coisas que estão a minha volta, fora de qualquer controle, de qualquer decisão, até mesmo sua.
E entre tantos desatinos e desencontros casuais (?) com algum deus pessoal que estivesse disposto a me explicar, eu busquei uma espécie de apoio, mesmo que insuficiente - já que não havia ser nesse mundo que me dissesse exatamente o que se passava naqueles últimos minutos, horas e dias. Pedi aos céus um nome. E entre pequenos fragmentos de lembranças me veio o de um anjo mortal que vivia a proteger minha vida.
Me lembrei de pequenas promessas silenciosas e da forma como nos meus apuros pessoais, pequenas besteiras cotidianas, pequenos gestos teus acalmaram meu frágil coração arredio. Na memória, duas frases oriundas de uma última oportunidade. Dizer "desespero" soa meio forçado, mas na falta de um meio termo, diria que quando esse sentimento acabou por atingir-me, talvez fosse ainda uma daquelas coisas pequenas - quando prometeu estar ao meu lado em coisas tão mais graves.
- Apesar de que, você me conhece bem, quando meus pseudônimos e as palavras escritas não me bastam, não trazem a mim uma pequena epifania, talvez seja algo extraordinariamente grave -
Pedi ajuda. E na angústia meu bem, os conceitos de tempo e espaço se distorcem. Ainda mais diante do desconhecido - pelo menos para mim. Seriam dias ou minutos? Semanas ou segundos? Não sei. Mas em minha prece silenciosa, pedi que mais uma vez me protegesse. E trouxesse a paz que me prometeu quando ela estivesse frágil.
Eu estava tão certa e tão fundamentada em certezas. Mal de alma canceriana com lua em peixes. A crença cega na palavra humana quando ela é tão efêmera quanto o segundo que passou.
Aprendi relutante a descobrir respostas no silêncio. Um sussurro vazio entre as respirações muitas vezes falhas, ou em um olhar. E eu, que havia treinado tantas vezes, me encontrei em uma cilada: encontrar respostas em um olhar que nunca havia me encarado daquela forma. E no silêncio que se seguiu, buscar respostas em respirações que eu não podia ouvir. Ele não trazia esclarecimentos. Um silêncio que não poderia ser compreendido. Este eu me recusava a entender.
E a incompreensão se torna mais prejudicial do que o diálogo que destoa de suas opiniões e crenças.
Minhas crenças? Há. Isso talvez soasse como piada. Nunca tive crenças. Sempre dúvidas e incertezas. Sem entender sempre. Sem perceber. Você deveria saber. Me conhece. Tudo bem, esse foi um trecho retórico o qual você deveria desconsiderar, se puder.
Nesse silêncio indiferente, soou uma voz que, nem de longe poderia ser sua, sussurrando-me as velhas promessas. Estas que nem de longe aconteceram nesses últimos tempos. Desculpa, sei que sou repetitiva...
... Mas é que a decepção que se construiu sobre a sua pessoa, vindo de meu coração vem desse que poderia ser um pequeno fato pra você... Mas um enorme para mim.
O que se passa em sua mente nesse instante, eu não pretendo saber. Neste momento são minhas suposições que se constroem em fatos comprovados, meus pequenos fatos - afinal, a verdade não é relativa? Eu poderia descobrir a sua verdade se assim me fosse permitido saber. Enquanto isso, só tenho uma única suposição: Sua mente não está preparada para compreender as faltas que seus atos evasivos podem trazer para minha alma velha. Eu, que sempre me achei tão imatura, me vi na condição de encontrar alguém em um estágio anterior ao meu. E nesses atos infantis, acabei por me esbarrar em uma alma fragilizada precisando somente de palavras - e um silêncio elouquente se assim desejasse. Porém, nossas almas não se encontram na mesma sintonia...
...Mas volto a dizer, são apenas as minhas suposições.
A única certeza que ambos podemos concordar meu bem é que, independe de uma necessidade urgente que envolva coisas graves ou de simples besteiras, quando nos colocamos como pequenos anjos das pessoas ao nosso redor, assumimos missões. Proteção, trazer paz, simplesmente estar próximo são algumas delas. Não se trata de promessas ou de contratos pré-estabelecidos. São coisas que fluem de nossa alma. Independem das circunstâncias ou dos nossos achismos. O que tiro disso tudo meu bem é que como meu anjo mais velho, falhastes. Clamei por ti e esperei tempo demais.
Porém, debaixo de todas as coisas que me decepcionaram disso meu bem, ainda sobra uma consideração. Eu sei exatamente o que dirias... "Você e seu coração canceriano rancoroso". Mas este mesmo coração é aquele que cederia no primeiro chamado. Pois sabes como é... Sentimentalismo barato e uma pitada de compaixão,são apenas algumas das pequenas coisas que compõem meu ser que você conhece tão bem.
Fique bem.
De uma protegida (?)