
Corra. Feche as janelas. Proteja-se do vento que corta, sem piedade, o ambiente. Há tempestade lá fora e parece que esta não está disposta a dar trégua! Os trovões aceleram meus batimentos e os raios clareiam nosso sobrado. Abrace-me, não estás sozinha. Aqueça-me com teu abraço e sussurre palavras de acalento. Seja calmaria em noite de tormenta. Seja minha. Cubra o pé gelado e tome esse chá. Pegue o travesseiro e acomode-se. Não! Mais perto! Deixe-me senti-la aqui... Converse comigo, não durma! Falar do que? De nós, pode ser?! Estás feliz? Me ama? Lembra-se de nossa primeira tempestade juntas? Das goteiras do sobrado, das fendas na porta, do estremecer da sensível janela de vidro, da pouca luminosidade da lamparina de querosene a queimar lentamente? Lembra-se do violão entoando o choro do medo na noite escura? Lembra-se do sono em conjunto, do abraço apertado e do suor frio de nossos corpos colados? Posso ouvir a reza vizinha pedindo calma aos ventos. Vejo seu olhar de medo...ah, seu olhar! Naquela chuva de verão elaboramos planos diversos, pintamos a casa de verde a vermelho, adotamos um gatinho, tivemos nossos filhos, nossos medos. Nos amamos, corpo a corpo, com a pressa de um foragido em um paraíso vigiado. Senti cada suspiro com um característico arrepio espinhal... Ainda está acordada? Ah, não chore, já está passando. Nosso sobrado é forte e você tem a mim. Sempre foi e será assim! Remexa suas lembranças, com cuidado, e notarás que sempre estive ali, como figurante ou não. Veja-me ali, por exemplo, no aniversário do seu primo menor, narrando contos de fadas às crianças, com o sorriso de uma delas. Ah, note-me também ali no cantinho da sala do hospital quando tivera aquela gripe terrível e só de sopa se alimentava. Eu te servi e aprendi a cozinhar. Também estou na sua formatura, dançando, cantando, e te levando pra nossa casa, fechando um importante ciclo de sua vida. Feche os olhos, vou fazer cafuné. Quando acordar o sol já terá nascido e o café já estará na mesa. O varal estará cheio de roupas nossas e os banheiros estarão lavados. Eu faço a faxina, não se preocupe. Sua entrevista de emprego é amanhã, não se esqueça! Nos sonhos trate de relaxar e não voe para muito longe, não sem mim! Já parecemos mais tranqüilas. Acho que a chuva já corre para longe. Posso sentir o cheiro de grama molhada misturado com seu perfume. Tudo caminha para seu lugar... O sono parece nos abraçar. Beijo-lhe então e sentes, no calor de meus lábios, a segurança do amanhã. Adormecemos.
Para minha morena dos olhos d'água, com amor!