sexta-feira, 19 de março de 2010

Untitled

... E então, eu só podia ver seus olhos...

Não sabia como os reconheci, mas ali estava o fato. Olhava-me com todo o mistério que fatalmente carregava consigo. Era um olhar infantil, como há muito tempo não via.
Seus olhos, tão próximos de mim, que me espantava com a riqueza de detalhes que podia ver...
... Eram olhos hesitantes. Era a criança tímida pedindo para entrar em um aposento secreto - o meu aposento, trancafiado, em minha tentativa inútil de proteção. Pediam com toda delicadeza permissão - ou será que se infiltraram porta adentro antes que eu pudesse controlar? Estava diante de uma alma medrosa ou um exímio invasor?
Deparei-me tentando esconder segredos - inutilmente. Minha criança invasora já havia entrado com permissão. Conhecia o que se escondia em mim. Então, não entendia o conflito que se criara naquele olhar.
Queria falar, indagar, qualquer coisa que me tirasse daquele estupor mudo, mas nada consegui fazer além de encarar aquele incrível par de olhos. Naquela conversa muda, sufocante, nada mais pude fazer além de repetir o jogo - e encontrar somente dúvidas sem nome. Tentei soltar-me das amarras que me prendiam àquela situação. Mas eu não conseguia, não podia.. E curiosamente - era o anúncio do prelúdio - no fundo eu não queria.
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Tudo se passara em uma fração de segundo. Diante da constatação, vi algo mudar naquele olhar - o que fora eu nunca saberei. Os lábios se curavaram em um estonteante sorriso. Estática. Fora a única reação que eu tive. Porém, oh traição minha, deixei-me vulnerável tão facilmente. Sem ar, vi as cenas seguintes passarem diante dos meus olhos.
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Vi a mão trêmula se erguer e tocar a minha face com delicadeza. Onde os dedos passaram, senti a pele queimar, arder em chamas. O coração congelara, as batidas pararam e o ar parou de chegar aos pulmões. A outra mão, que carregava de forma envergonhada o receio de seu dono, segurou-me pela cintura - surpreendentemente - com firmeza. Não havia escapatória. Não podia fugir. Estava fatalmente presa.

Um passo a frente. Eu ainda estava estática no mesmo ponto. Talvez tudo aquilo terminasse em nada. Meu corpo não reagia. Desfoque. Cores pálidas e vibrantes se misturavam na minha frente. Decidi fechar os olhos. Todos os sentidos assustados trabalharam dobrado.

Podia sentir o hálito quente diante de mim, tão próximo, que queimava minha face. Claramente senti o frescor de menta e outro cheiro doce, agradável, que ficaria marcado em minha mente por muito tempo. O sentia tão próximo a mim, que sabia que o momento derradeiro estava a milésimos de segundo de acontecer - ledo engano.

Abri os olhos e senti o receio me queimar naqueles olhos infantis. Mas - e isso é um fato certo tal como a matemática é exata - quando chegamos a um certo ponto, é impossível voltar e deixar tudo como era, intocável. E antes de sorrir e fechar os olhos, vi a ansiedade faiscando em seus olhos, e sabia que um pouco daquilo era reflexo dos meus.
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Lábios macios tocaram os meus timidamente. A timidez foi substituida primeiramente por euforia e depois por uma atração e paixão irresistíveis. Toda a resistência foi embora - e aqui devo dizer que não há palavra em toda a língua portuguesa que descrevesse merecidamente aquele acontecimento .

Se duraram segundos, minutos, horas, não fez diferença. Estava em êxtase. Abrimos os olhos e nos encaramos por um curto momento. Conseguíamos nos ouvir no silêncio e pensávamos as mesmas palavras - e sorrimos deliciosamente.

Um piscar de olhos - aquela fração de segundos ínfima - e quando os abri, só conseguia ver a parede do quarto gelada a me olhar com pena.


[O escritor tem o dom de transformar
cinco segundos de realidade
em minutos de poesia...
...Em horas de reflexão.]

sexta-feira, 5 de março de 2010

Brincar

A chuva caia devagar e silenciosa, abraçando o todo, englobando tudo.
O ar nostalgico entranhava nos corpos com a leveza de uma pétala a cair.
O tempo passava e eu passeava. Minha mente era como um pântano, muito perigosa.
Às vezes era necessário voltar ao mundo real...
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Eu andava pela rua cantarolando antigas canções que ainda me comoviam.
Observava tudo ao meu redor e dava nome para tudo que via, como em uma brincadeira de criança.
O ônibus chamei de mãe, pois nas horas difíceis, com chuva ou pouco dinheiro era ele que me recolhia; as ruas chamei de destino, pois minhas escolhas me levavam para diferentes caminhos; os postes da cidade chamei de amigos, pois nas horas sombrias eles me mostravam a luz e o caminho a seguir...
Assim fui brincando, caminhando, imaginando e me molhando com os leves pingos de chuva que me contemplavam.Purificação.
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Meus olhos então encontraram algo que me surpreendeu. Meu corpo parou repentinamente e eu não tinha mais ação. Eu só conseguia observar. Um mendigo com um violão e um nariz de palhaço...
Talvez olhar a tristeza sozinha ou a suavidade de um músico não me tocaria tanto, mas tudo junto,numa coisa só, foi espantoso.
Em um pedaço de papelão, agora molhado com a chuva se encontrava um Homem. Sujo e descabelado, com um nariz de palhaço e um violão a declamar Vinícius de Morais.
Eis a tristeza, a miséria, a felicidade e a suavidade de um poeta em um só ser.
O ar parecia estar mais frio.
Senti um arrepio. Típico.
Com as mãos tentei me aquecer... A brincadeira deveria continuar.
Foi então que encontrei um nome para aquele ser....
Aquele homem eu chamaria de "EU".



[Inspirado em um texto de Jefferson Teodoro]

terça-feira, 2 de março de 2010

... Do latim: Renascida


Poderia ser uma segunda a tarde, quarta de manhã ou domingo, não importa. Para essa história, não importa o dia da semana, o mês ou o ano. A única coisa que realmente importa é que não fazia calor naquele dia. O ar soprava fresco entre a copa das árvores. Mas o céu era um azul estonteante, com pouquíssimas nuvens – era um daqueles dias que você agradecia por estar vivo.

Renata, nossa protagonista, é uma pessoa cujas feições estão somente no nosso imaginário. Ela pode ser bela, normal, alta ou baixa, gorda, magra, esbelta, a gosto do nosso leitor. Ela pode ser como eu – ou como você. Ela pode ser quem você desejar, pois ela é uma pessoa comum – ri, sente-se chateada, gosta de chocolate e arroz com feijão, dentre tantas outras coisas.

Então, nessa manhã em especial, nossa querida protagonista cumpriu o ritual, como o cotidiano manda. E de vestes trocadas, com o hálito agradável e cabelos sedosos penteados, foi para a rua – sabe-se lá por qual motivo, não é importante. Ao chegar ao portão, olhou para a esquerda a procura de pessoas conhecidas. Não encontrou ninguém. Girou-se para a direita e se deparou com uma cena esquisita.

Ouviu um cantarolar alto, que se revezava com versos desconexos. Na verdade, o cantante não era lá afinado e sua melodia não era lá agradável, mas isso não era desmotivador para aquele ser. Vinha saltitando, e suas vestes largas e pomposas se sacudiam junto, quase deixando a cartola que carregava cair. Parecia um daqueles palhaços antigos que só vemos em pinturas. E curiosamente, ele vinha em direção de Renata.

Uma pessoa com o rosto mascarado – uma máscara de cores tão vivas – lhe entregou uma rosa com um envelope. Sem saber o que dizer, ela acolheu a rosa em sua mão e, curiosa, perguntou a criatura mascarada

- Mas quem és tu que se esconde debaixo da máscara? Qual o rosto que sorri ao me presentear?

A criatura retirou a cartola de sua cabeça e numa reverência curta, cumprimentou a moça e sem dizer uma única palavra virou-se e saiu a cantarolar e a saltitar pela rua.

Sem entender uma palavra, nossa jovem retornou a casa, deixando a bela rosa em cima da mesa, passando-se despercebida. Dentro do envelope, havia um cartão, cuja capa não trazia desenho nenhum. Era feito de um azul vivo, escrito com letras vermelhas.

“Querida Renata

Quem te escreve é um ser sem rosto, sem história, sem uma personalidade – ou seja, sou alguém irrelevante para a sua existência. Entã,o você se pergunta por que um ser que pouco tem importância na sua vida se preocuparia em lhe dar uma rosa. Pois bem. Mas VOCÊ Rê, não é um ser irrelevante. Você é alguém especial – não para mim ou para quem te cerca. Não importa para quem você é, desde que saiba que é. . As vezes nos esquecemos que esses joguinhos de palavras são importantes. Eu preciso dizer o quanto você é especial para não se esquecer dessas palavras, para trazer um pouco de paz para ti hoje. Eu sei muito bem que elas vão aquecer seu coração e vão lhe fazer sorrir – um sorriso lindo capaz de acender os céus, de hipnotizar os anjos... As vezes nos esquecemos do quanto somos importantes nesse mundo. Não escrevo a ti em nome de nenhum Deus, nem nenhuma religião. Te escrevo como um ser humano normal, que vê em seus olhos a falta de esperança e de fé em si mesma. Vejo em ti a necessidade de se bastar na existência de alguém, enquanto não se basta em si mesma. Leia sempre essas palavras pela manhã, mas não todos os dias, para que o efeito delas possa perdurar. Um dia o esquecimento não existirá mais e você entenderá o verdadeiro significado de ser especial – de ser uma pessoa única nesse mundo que cada vez uniformiza mais. Não se deixe levar por palavras levianas que queiram te derrubar. Alguém precisa te fazer acordar desse estupor, pois alguém no mundo, um rosto sem nome, um corpo sem história conhecida precisa de você. Mas isso é um mistério. Sempre haverá um desconhecido pra quem você é especial. Quando seu rosto toma forma e descobrimos seu nome, logo se forma outro, para que continuemos essa busca, para encontrarmos em nossa existência um propósito maior. Mas para que você possa ser importante para alguém, seja para você mesma. E quando sentir falta de um pouco de carinho, leia essas palavras, pois para mim- o desconhecido sem rosto -, pequena Rê, você é especial, assim como essa rosa que agora para ti tem um perfume tão diferente dos outros. Viva assim. Faça com que seu perfume seja diferente dos demais usuais. Seja você. Viva. Faça diferente. Seja especial para você.

De seu desconhecido."

E então, pequenos leitores, uma lágrima de ternura escorreu dos olhos de Renata.


[Dedico esse texto a todos aqueles que de alguma forma, precisam ouvir que são especiais. As vezes precisamos ser lembrados desse fato. Então, me deixe ser o palhaço que lhes entrega a rosa hoje. Pois todos nós, um dia, podemos ser aquele que precisa ler o cartão, ou aquele que virá saltitando e cantarolando pela rua.]

Aprendizado

Do mesmo modo
que da alegria
foste ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão
que a vida só consome
o que a alimenta.

Ferreira Gullar