sexta-feira, 19 de março de 2010
Untitled
sexta-feira, 5 de março de 2010
Brincar
O ar nostalgico entranhava nos corpos com a leveza de uma pétala a cair.
O tempo passava e eu passeava. Minha mente era como um pântano, muito perigosa.
Às vezes era necessário voltar ao mundo real...
.
.
.
Eu andava pela rua cantarolando antigas canções que ainda me comoviam.
Observava tudo ao meu redor e dava nome para tudo que via, como em uma brincadeira de criança.
O ônibus chamei de mãe, pois nas horas difíceis, com chuva ou pouco dinheiro era ele que me recolhia; as ruas chamei de destino, pois minhas escolhas me levavam para diferentes caminhos; os postes da cidade chamei de amigos, pois nas horas sombrias eles me mostravam a luz e o caminho a seguir...
Assim fui brincando, caminhando, imaginando e me molhando com os leves pingos de chuva que me contemplavam.Purificação.
.
.
Meus olhos então encontraram algo que me surpreendeu. Meu corpo parou repentinamente e eu não tinha mais ação. Eu só conseguia observar. Um mendigo com um violão e um nariz de palhaço...
Talvez olhar a tristeza sozinha ou a suavidade de um músico não me tocaria tanto, mas tudo junto,numa coisa só, foi espantoso.
Em um pedaço de papelão, agora molhado com a chuva se encontrava um Homem. Sujo e descabelado, com um nariz de palhaço e um violão a declamar Vinícius de Morais.
Eis a tristeza, a miséria, a felicidade e a suavidade de um poeta em um só ser.
O ar parecia estar mais frio.
Senti um arrepio. Típico.
Com as mãos tentei me aquecer... A brincadeira deveria continuar.
Foi então que encontrei um nome para aquele ser....
Aquele homem eu chamaria de "EU".
[Inspirado em um texto de Jefferson Teodoro]
terça-feira, 2 de março de 2010
... Do latim: Renascida
Poderia ser uma segunda a tarde, quarta de manhã ou domingo, não importa. Para essa história, não importa o dia da semana, o mês ou o ano. A única coisa que realmente importa é que não fazia calor naquele dia. O ar soprava fresco entre a copa das árvores. Mas o céu era um azul estonteante, com pouquíssimas nuvens – era um daqueles dias que você agradecia por estar vivo.
Renata, nossa protagonista, é uma pessoa cujas feições estão somente no nosso imaginário. Ela pode ser bela, normal, alta ou baixa, gorda, magra, esbelta, a gosto do nosso leitor. Ela pode ser como eu – ou como você. Ela pode ser quem você desejar, pois ela é uma pessoa comum – ri, sente-se chateada, gosta de chocolate e arroz com feijão, dentre tantas outras coisas.
Então, nessa manhã em especial, nossa querida protagonista cumpriu o ritual, como o cotidiano manda. E de vestes trocadas, com o hálito agradável e cabelos sedosos penteados, foi para a rua – sabe-se lá por qual motivo, não é importante. Ao chegar ao portão, olhou para a esquerda a procura de pessoas conhecidas. Não encontrou ninguém. Girou-se para a direita e se deparou com uma cena esquisita.
Ouviu um cantarolar alto, que se revezava com versos desconexos. Na verdade, o cantante não era lá afinado e sua melodia não era lá agradável, mas isso não era desmotivador para aquele ser. Vinha saltitando, e suas vestes largas e pomposas se sacudiam junto, quase deixando a cartola que carregava cair. Parecia um daqueles palhaços antigos que só vemos
Uma pessoa com o rosto mascarado – uma máscara de cores tão vivas – lhe entregou uma rosa com um envelope. Sem saber o que dizer, ela acolheu a rosa em sua mão e, curiosa, perguntou a criatura mascarada
- Mas quem és tu que se esconde debaixo da máscara? Qual o rosto que sorri ao me presentear?
A criatura retirou a cartola de sua cabeça e numa reverência curta, cumprimentou a moça e sem dizer uma única palavra virou-se e saiu a cantarolar e a saltitar pela rua.
Sem entender uma palavra, nossa jovem retornou a casa, deixando a bela rosa em cima da mesa, passando-se despercebida. Dentro do envelope, havia um cartão, cuja capa não trazia desenho nenhum. Era feito de um azul vivo, escrito com letras vermelhas.
“Querida Renata
Quem te escreve é um ser sem rosto, sem história, sem uma personalidade – ou seja, sou alguém irrelevante para a sua existência. Entã,o você se pergunta por que um ser que pouco tem importância na sua vida se preocuparia em lhe dar uma rosa. Pois bem. Mas VOCÊ Rê, não é um ser irrelevante. Você é alguém especial – não para mim ou para quem te cerca. Não importa para quem você é, desde que saiba que é. . As vezes nos esquecemos que esses joguinhos de palavras são importantes. Eu preciso dizer o quanto você é especial para não se esquecer dessas palavras, para trazer um pouco de paz para ti hoje. Eu sei muito bem que elas vão aquecer seu coração e vão lhe fazer sorrir – um sorriso lindo capaz de acender os céus, de hipnotizar os anjos... As vezes nos esquecemos do quanto somos importantes nesse mundo. Não escrevo a ti em nome de nenhum Deus, nem nenhuma religião. Te escrevo como um ser humano normal, que vê em seus olhos a falta de esperança e de fé em si mesma. Vejo em ti a necessidade de se bastar na existência de alguém, enquanto não se basta em si mesma. Leia sempre essas palavras pela manhã, mas não todos os dias, para que o efeito delas possa perdurar. Um dia o esquecimento não existirá mais e você entenderá o verdadeiro significado de ser especial – de ser uma pessoa única nesse mundo que cada vez uniformiza mais. Não se deixe levar por palavras levianas que queiram te derrubar. Alguém precisa te fazer acordar desse estupor, pois alguém no mundo, um rosto sem nome, um corpo sem história conhecida precisa de você. Mas isso é um mistério. Sempre haverá um desconhecido pra quem você é especial. Quando seu rosto toma forma e descobrimos seu nome, logo se forma outro, para que continuemos essa busca, para encontrarmos em nossa existência um propósito maior. Mas para que você possa ser importante para alguém, seja para você mesma. E quando sentir falta de um pouco de carinho, leia essas palavras, pois para mim- o desconhecido sem rosto -, pequena Rê, você é especial, assim como essa rosa que agora para ti tem um perfume tão diferente dos outros. Viva assim. Faça com que seu perfume seja diferente dos demais usuais. Seja você. Viva. Faça diferente. Seja especial para você.
De seu desconhecido."
E então, pequenos leitores, uma lágrima de ternura escorreu dos olhos de Renata.
[Dedico esse texto a todos aqueles que de alguma forma, precisam ouvir que são especiais. As vezes precisamos ser lembrados desse fato. Então, me deixe ser o palhaço que lhes entrega a rosa hoje. Pois todos nós, um dia, podemos ser aquele que precisa ler o cartão, ou aquele que virá saltitando e cantarolando pela rua.]